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Kleber Frizzera

Arquiteto, professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

Como sempre, 2021

Se nada somos neste mundo,
Sejamos tudo

Internacional comunista

Como toda tragédia histórica, a pandemia do corona vírus que atingiu o planeta, expos a ambiguidade ou a contradição da sociedade humana, capaz de abrigar os maiores atos de heroísmo e solidariedade aos piores gestos de ódio, violência e desprezo aos outros e à natureza.

Se em parte, podemos debitar esta oposição aos valores capitalistas, hegemônicos, que acima dos interesses coletivos, instalam os individuais, a acumulação de bens e os lucros das empresas à custa do sofrimento e exploração do trabalho e a submissão dos mais fracos, a constatação da repetição cíclica desta condição parece ultrapassar nossos tempos e estar inserido no nosso modo de ser, desde as origens de vida humana na Terra.

Para os cristãos, o mal ou o pecado original, se instalou nos corações e corpos da humanidade desde a sua expulsão do paraíso, cabendo aos herdeiros de Adão carregar para sempre esta mácula primeira. A religião e seus pastores, dogmas e liturgias, seriam os únicos caminhos para vencer esta batalha, para a redenção e a submissão final das forças do mal.

Para os mais ateus, a condição da luta pela sobrevivência, na apropriação de recursos escassos, fez que os grupos primitivos e atuais, se digladiassem na disputa dos bens que garantissem a suas continuidades materiais e simbólicas. Guerra, destruição, escravidão e poder seriam as marcas permanentes destas disputas, impressas no DNA de nossos corpos, mentes e das nossas organizações sociais.

Mas a experiência das muitas mortes, das dores e sofrimentos dos mais próximos, a sensação de desamparo, desesperança, desespero, que, na pandemia, atinge a toda a humanidade, que se depara, ao mesmo tempo, com os riscos da sua extinção, causada pelas mudanças climáticas, não nos conduz a uma consciência e ao compromisso de novos comportamentos?

A história não nos informa nenhuma esperança. Superadas as guerras, epidemias, pestes, hecatombes, holocaustos e assassinatos em massa, quando mudas a poesia e a palavra, a mesma geração retorna às práticas anteriores, e novas guerras, desigualdades, preconceitos ocupam o vazio deixado, quando a verdade e os fatos reais substituídos pelas mentiras e ilusões.

As utopias, religiosas ou seculares, sonhos milenares, em cada tempo, repetidamente, procuraram apontar para futuros melhores, igualitários, onde na harmonia com a natureza, homens e mulheres vivessem em paz e felicidade, mesmo certos das suas finitudes e das dores inevitáveis das doenças dos corpos e dos amores.

Pestes e pandemias, castigos de Deus ou anúncios da natureza, em escala planetária, seriam uma oportunidade de rever prioridades, intenções, refletir, propor mudanças das práticas sociais, alterar modos de produção e consumo.

Mas, seremos capazes?

Duas interpretações opostas explicam o desenvolvimento da raça humana.

A primeira, determinista biológica/religiosa, ou devidos a motivos econômicas/sociais, nos diz que as sociedades são resultados de causas externas, que definem seus modos e comportamentos, valores e entendimentos. Animal natural ou social, os homens seriam regidos por determinações marcados em seu DNA, ou por ideologias, tecidas na sociedade e na cultura de pertencimento cultural ou local.

A segunda explicação, do livre arbítrio, acredita serem capazes, indivíduos e a humanidade, de definirem seus propósitos e comportamentos sociais, escolhendo em cada encruzilhada do destino, o caminho reto e correto, uma ética universal ou religiosa, onde a lei divina ou dos homens se estabelece por imposição ou acordo mútuo.

No cruzamento destas definições se estabeleceram as ideologias liberais ou socialistas, individualistas ou coletivistas, libertárias ou anarquistas, entrecruzadas com os dogmas religiosos, monoteístas ou pagãs, disputando corações e mentes no mundo global.

Para alguns, a democracia seria um modelo universal de equilibrar as tensões e disputas destes conflitos, para outros, o poder centralizado necessário e suficiente para pacificar, `a força, estas diferenças.

O capital, movimenta-se, seus ganhos, nestas frestas, separações, divisões. Em nome da eficiência, competitividade, empreendorismo, em nome da liberdade individual, da Graça, do mérito, concedida a alguns, da propriedade privada e a desigualdade original das raças, gêneros ou cor, ultrapassa, mimetiza, impõem e convence, que os homens são nascidos livres, desiguais em fortuna e capacidades, e ao concentraram fortunas e riquezas contribuem para o bem comum, assim vícios individuais somam vantagens coletivas.

Enquanto isto, enquanto as mortes na pandemia, enquanto o aquecimento global, enquanto o aprofundamento das desigualdades e a manutenção dos preconceitos, dizem os jornais mundiais, as misérias e as grandes fortunas se expandiram e cresceram com o coronavírus.

Como toda a a tragédia, o final é a morte.

Kleber Frizzera

6 de Janeiro 2021

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