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Kleber Frizzera

Arquiteto, professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

Memória, melancolia e futuros

O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos presentes no tempo futuro
E o tempo futuro contido no tempo passado.
T. S. Eliot

A expansão planetária da Covid 19, impondo uma redução dos contatos pessoais e corporais com a vida pública urbana, ampliando o acesso às informações e trocas digitais, tem incentivado, nas redes sociais, o compartilhamento de fotos, imagens, reportagens, textos, lembranças, acumulando incontáveis e contraditórias narrativas de antigos locais e acontecimentos, na vã tentativa da recordação total de um tempo vencido. Este desejo de reter o passado, presente nos objetos arruinados e nas fotos desbotadas, se configura como uma saudade de sítios desfeitos, uma nostalgia de esquecidas situações, registrados apenas nos seus resíduos.

“A nostalgia pode ser uma utopia às avessas”, sugere Andreas Huyssen, uma lembrança de um momento que era ainda possível imaginar outros futuros, conflitantes, como são os documentos que buscam revelar estas possibilidades em eventos passados.
No Espírito Santo, jovens e idosos, melancólicos ou diletantes, escavam arquivos e gavetas, publicam nas redes, desnudando fotos antigas de famílias, de cerimonias oficiais, publicidades de produtos e eleições, vídeos de festas, inaugurações, imagens de edifícios demolidos e das paisagens perdidas, no interior e na metrópole.

Estaríamos, capixabas, como outros, inseguros e solitários diante da crise global de saúde e da economia, perdidas a confiança e a esperança em futuros melhores, quando “ecoam passos da memória”, empenhados agora em resgatar ambientes e sentidos abandonados pela ilusão de um progresso ilimitado?

Curiosos, retomando situações e contatos perdidos, “recordo-me daquelas pérolas que eram seus olhos”, recolhemos marcas e testemunhos, tentando recuperar experiências felizes e inovadoras, e identificar nelas os germes de futuros anteriores fracassados.
Estaríamos anotando uma memória do futuro, escreve Boaventura de Souza Santos, que ao fazer uma autopsia social do passado e pensar o futuro, denuncia as monstruosidades do cotidiano, mas reconhece, nos intervalos e nos restos abandonados, as resistências e iniciativas criativas, e nos convoca a imaginar e prover um mundo diferente?

Desfeitos os laços identitários com uma (quase) metrópole e uma sociedade fragmentadas, rompidas as ligações com a vida pública, diante da dispersão e esvaziamento dos pertencimentos urbanos, basta escolher uma identidade particular, racial ou etno cultural, de sexo ou de classe, definindo legitimidades de lugares de fala e posição?
Ou, a refazer os vínculos espaciais, da presença olvidada, e através de uma (re)invenção de sentidos impostos `a matéria inerte, a partir das recordações e disputas de legitimação da memória, almejamos revelar as relações “autenticas” com as paisagens e práticas sociais desfeitas?

Nestes possíveis Movimentos Online, generalistas ou universais, particulares ou identitários, desfeitos os corpos e as sensibilidades sensoriais, cabe perguntar onde se instalara’ a vida real- pós pandemia- na cidade, uma vida urbana que se oponha `a virtual separação dos corpos, que (re) constitua o contato direto entre as pessoas, com o artifício e a natureza.

A cidade é uma depositária de eventos, “pois passado e passado ai se enlaçam”, formas e práticas que suportam os fracassos, as violências e as desigualdades, mas também auguram novos tempos. Tempos possíveis, que circulam entre os acontecimentos e intermédios soterrados,“ ao longo das galerias que não percorremos, em direção à porta que jamais abrirmos, e que revelam sementes alternativas `a desumanidade neo liberal.
Mas como reconhecer e registrar sob o imenso monturo do lixo da história, o acúmulo de memórias conflitantes, o veio que desliza sob o peso e a massa indistinta das coisas, garimpar e desvelar o futuro neste confuso mineral? Como separar a pedra bruta, lapidar e polir o dado e o instante único, surpreendente, maravilhoso, o belo domingo, revelar, entre as ruínas, o sentido e o projeto que incentivam e fazem valer o esforço da luta?

Para Walter Benjamim, “articular o passado não significa conhecê-lo como ele foi de fato. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento do perigo….Em cada época e’ preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela”. Nesta linha, Boaventura de Souza Santos nos conclama a valorizar, tanto na teoria como na prática, “as sementes de esperança emergente, as aflorações de alternativas”, quando a projeção no futuro, horizonte utópico, não recusa o conhecimento do passado, mas “assume-o e redime-o pelo modo como ele se desvia e o aproveita como experiência”. Convencido que “nem os mortos estarão a salvo se o inimigo vencer”, conclui Benjamim, escavar uma leitura a contrapelo do passado, permitiria recuperar nas suas imagens explodidas e experiências vividas, os traços das falas originais que sinalizam rastros de fracassos e utopias que anunciem e deixem expostos as ideias que orientem um novo modelo de civilização.

Uma civilização cosmopolita, na medida da diversidade da humanidade, onde caibam múltiplos mundos, onde se realizem outros modos de vida e de relação com a natureza, onde outros modelos “liguem o imanente ao transcendente, e deem à defesa da vida uma prioridade e uma dignidade mais amplas”, propõe Boaventura Santos.

 

Foto: Reprodução

Kleber Frizzera
Abril 2021

27/04/2021

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