120… 150… 200 km por hora – Maciel de Aguiar

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Ayrton Senna da Silva, ou Ayrton Senna do Brasil, como ele ficou mundialmente conhecido, foi o maior personagem da história recente do automobilismo e, em sua modalidade esportiva, se converteu em um incontestável ídolo, contribuindo para a popularização do esporte e criando o hábito de milhões de brasileiros que, nas madrugadas, manhãs ou tardes de domingo, lhe devotavam o impreterível compromisso em frente aos aparelhos de televisão para torcer por suas vitórias.

E todos sabiam que ele gostava de ouvir rock, sobretudo as bandas norte-americanas e inglesas, como a Queen, quando tocava I want it all, mas, em uma entrevista coletiva e ou individual, jamais um repórter perguntou a ele qual a música de sua preferência, possivelmente por ser quase o óbvio, por duas razões: a aristocrática cidade de Londres era uma espécie de sua “segunda casa”, e aquele conjunto era um dos melhores do rock and roll, então, era preciso esperar outra oportunidade.

E, como nas coletivas de imprensa ele respondia quase que às mesmas perguntas dos repórteres da Europa e de outros continentes, em fluente inglês, era preciso saber a hora certa para lhe perguntar sobre a música popular brasileira, qual o seu cantor preferido e, principalmente, que música o havia marcado em algum momento da vida, e, sobretudo, por estarmos no contexto da Fórmula 1, qual a sua velocidade preferida.

Certa feita, o encontrei na sala VIP do Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, cercado por “assessores”, notadamente para evitar o assédio de curiosos e ou de fãs, embora, gentilmente, ele os atendesse e não se sentisse incomodado, porém a determinação seria para “não deixar ninguém se aproximar”, então, era preciso dar um “drible de Mané Garrincha” e deixar aqueles “assessores”, literalmente, sentados.

Quando ele pegou o fone de ouvido, se posicionou, possivelmente para ouvir alguma música, foi a senha de que precisava para abordá-lo no canto da sala e fazer a pergunta que sempre fazia a inúmeras pessoas: Gosta da música de Roberto Carlos?; e, surpreso, ele parou o movimento, ficou com o fone na mão, pensou por alguns segundos, deixou  o olhar ligeiramente perdido no espaço vazio do saguão e respondeu, generosamente: “Como todo bom brasileiro…”, e esboçou um leve sorriso.

E, em seguida, completei se havia alguma música em especial, e, por mais alguns segundos, como a buscar alguma reminiscência no longe do tempo, ele voltou a perder vagamente o olhar na sala do aeroporto, como se tivesse alguma dúvida, e respondeu: “Aquela que Roberto Carlos canta… 200 quilômetros por hora!”, obviamente pelo fato de a velocidade ser o seu tema preferido, pensei, e resolvi ajudá-lo com o nome da canção: “120… 150… 200 km por hora”.

“Esta mesma!”, disse, mas a imensurável surpresa veio a seguir, e, sem ao menos lhe perguntar, confidenciou: “Quando competia no kart… sempre sonhei pilotar um carro a duzentos quilômetros por hora, mas, como a velocidade não passava dos noventa quilômetros, esperei pilotar na Fórmula 1para ultrapassar esta velocidade… mas, na solidão cockpit, de olho no velocímetro, não pensamos em outra coisa diferente senão vencer, e quase sempre o piloto vivencia uma grande emoção!”, contou.

Agora, ele havia deixado os fones de ouvidos sobre o assento ao lado e continuou falando: “Mas tem uma coisa que pensei em falar para Roberto Carlos, quando ele me entrevistou para um programa da TV Globo, que, quando ganhei o meu primeiro ‘Grande Prêmio’, no ‘Autódromo do Estoril’, em Portugal, ao atingir, pela primeira vez, em uma competição, a velocidade de duzentos quilômetros por hora, me lembrei dessa canção!”, revelou.

E continuou, “Poderia ter contado a ele que me lembrei da canção quando o ponteiro chegou a 120… 150… 200… e foi emocionante ultrapassar os duzentos quilômetros por hora na corrida em que ganhei o meu primeiro grande prêmio…”, então, em seguida, perguntei por que não havia feito aquela revelação à imprensa: “Ninguém me perguntou, nem mesmo Roberto Carlos me perguntou qual a música dele eu mais gostava… Com certeza diria que era ‘120… 150… 200 quilômetros por hora’, mas você foi o primeiro a perguntar!”, disse.

Como havia dado um drible de Mané Garrincha naqueles “assessores”, que ficaram, digamos, “sentados e fora de jogo”, e assistiam à cena sem interferir, tinha o dever de fazer um gol como se fosse o “Rei” Pelé, e perguntei qual a sua velocidade preferida na Fórmula 1, e, possivelmente, mais uma vez, ele deve ter pensado que era a segunda pergunta que nenhum outro repórter jamais lhe havia feito, em nenhuma entrevista, assim como ele também jamais a havia revelado a qualquer pessoa.

Então, aquele “rei” de um esporte que, também, encantara o povo brasileiro e fazia dele um dos seus maiores ídolos, pois havia vencido três campeonatos mundiais deFórmula 1, era aclamado por milhões de fãs e admiradores, olhou para o lado e voltou a perder o olhar no vácuo, como a relembrar alguma reminiscência perdida, e, para minha maior surpresa, com absoluta convicção, ele respondeu: “Duzentos quilômetros por hora!”

Foi emocionante e quase inacreditável ouvir um dos maiores pilotos do mundo revelar duas de suas mais remotas reminiscências — a sua canção preferida da Música Popular Brasileira, de autoria de Roberto Carlos, e, ainda, saber que aquela música o havia inspirado na Fórmula 1, ao menos quando venceu o seu primeiro Grande Prêmio.

E, também, nem o mais visionário chefe de reportagem ou experiente “pauteiro” de qualquer grande jornal poderia sugerir aquela pauta nascida da mais absoluta casualidade, quando o “rei da canção”, que embalava a alma brasileira, fez o “rei das pistas” confidenciar que, em suas reminiscências distantes, uma música o havia motivado na solidão do cockpit, em sua primeira vitória, e lhe deu ânimo para superar as adversidades e comemorar aquela brilhante estreia.

E, ao final, uma comissária de bordo veio avisar que iria levá-lo à aeronave, então, ele colocou, finalmente, o fone nos ouvidos, se levantou, estendeu-me a mão, perguntou para qual veículo de comunicação eu trabalhava, quando lhe disse que estava escrevendo um livro contando as histórias das canções de Roberto Carlos que haviam marcado a vida das pessoas, e algumas delas achavam que determinada música tinha sido feita para elas; ele voltou a dar um leve sorriso.

E, mais uma vez, disse: “Por certo a música ‘120… 150… 200 quilômetros por hora’ não foi feita para mim, mas me apoderei dela em um momento importante da vida, quando, precisando vencer e, de olho no velocímetro, senti uma energia que vinha não sei de onde, me sentia nas nuvens e era a minha primeira corrida na Fórmula 1“, e completou: “Quando puder, diga a Roberto Carlos que eu o admiro por sua força, competência, determinação e, principalmente, diga que 200 quilômetros por hora também é a minha velocidade preferida”, e saiu andando.

E nunca mais nos vimos, mas, nas manhãs de domingo, assim como milhões de brasileiros que ficavam em frente à televisão vendo-o fazer as mais espetaculares ultrapassagens, cortando os adversários até nos mínimos espaços, dirigindo a 120… 150… 200… quilômetros por hora e, muitas vezes, até a mais de trezentos quilômetros, nas inúmeras corridas de Fórmula 1  que o mundo teve a oportunidade de assistir, quem sabe ele não voltou a pensar, na solidão do cockpit, na música do “Rei da MPB” e quando chegou na sua velocidade preferida?

E, como já devia estar voando para o destino de novas corridas, também embarquei para o meu vôo e pensei na canção que não mais saía de minha cabeça: “As coisas estão passando mais depressa / O ponteiro marca 120 / O tempo diminui / As árvores passam como vultos / A vida passa, o tempo passa / Estou a 130 / As imagens se confundem / Estou fugindo de mim mesmo / Fugindo do passado, do meu mundo assombrado / De tristeza, de incerteza / Estou a 140 / Fugindo de você…

E, naquele instante, possuído pela emoção de ouvir de um dos mais celebrados cidadãos do mundo confidenciar que a sua música preferida de Roberto Carlos era “120… 150… 200 km por hora”, parecia que ouvia aquela sublime canção: “Eu vou voando pela vida sem querer chegar / Nada vai mudar meu rumo nem me fazer voltar / Vivo, fugindo, sem destino algum / Sigo caminhos que me levam a lugar nenhum…”, e quase adormeci pensando na música que, agora, imaginava suavemente em meus ouvidos:

O ponteiro marca 150 / Tudo passa ainda mais depressa / O amor, a felicidade / O vento afasta uma lágrima / Que começa a rolar no meu rosto / Estou a 160 / Vou acender os faróis, já é noite / Agora são as luzes que passam por mim / Sinto um vazio imenso / Estou na escuridão / A 180 / Estou fugindo de você…”, e, novamente, levado por uma incontida emoção, percebi que as nuvens passavam rapidamente, e ele poderia estar em alguma delas, quando uma luz perpendicular refletia na asa do avião e entrava pela pequena janela, e a canção estava em minha memória:

Eu vou, sem saber pra onde nem quando vou chegar / Não, não deixo marcas no caminho pra não saber voltar / Às vezes sinto que o mundo se esqueceu de mim / Não, não sei por quanto tempo ainda eu vou viver assim…”, e, naquela velocidade, acreditava que a música estava fazendo em minha alma o mesmo efeito que fizera no “Rei da Fórmula 1” e, sobretudo, que aquele magnífico piloto era, também, gentil, humano e generoso, ao me propor que escrevesse as histórias de suas corridas, quando voltei a pensar na canção, agora declamada:

O ponteiro agora marca 190 / Por um momento tive a sensação / De ter você a meu lado / O banco está vazio / Estou só, a 200 por hora / Vou parar de pensar em você / Para pensar na estrada… Vou sem saber para onde, nem quando vou parar / Não, não deixo marcas no caminho pra não saber voltar / Às vezes sinto que o mundo se esqueceu de mim / Não, não sei por quanto tempo ainda eu vou viver assim… Eu vou, vou voando pela vida…”

Àquela hora, o piloto estava voando para Portugal, onde havia vencido sua primeira corrida da Fórmula 1, em 21 de abril de 1985, no Grande Prêmio do Estoril, um domingo de chuva, com a sua Lotus que o levou ao primeiro lugar no pódio, e residiu no país, comprando uma casa em Algarve, e, nove anos após, em 1º de maio de 1994, em San Marino, em Ímola, na Itália, no Autódromo Enzo e Dino Ferrari, na curva Tamburello, transformada em “chicane”, fez a sua passagem para a eternidade, e o mundo assistia incrédulo pelas telas das TVs.

Naquele instante, também fiquei paralisado e me lembrei da música “120… 150… 200 km por hora”, com ele, humildemente, dizendo ser a canção de Roberto Carlos de sua preferência, mas era impossível descobrir, naquele momento, qual a velocidade na hora da batida, quanto os organizadores do Grande Prêmio da Itália e os dirigentes da Fórmula 1, após o exame de telemetria, anunciaram que o piloto, reduziu a velocidade de 300 quilômetros por hora, ou seja, cento e noventa e cinco milhas por hora, ao perceber o descontrole do carro.

E fiquei ainda mais emocionado quando a imprensa mundial divulgou os dados oficiais do acidente: “Ao bater, os equipamentos do veículo travaram a exatos 200 quilômetros por hora, o que significa 135 milhas por hora”, nem um décimo a mais ou a menos, e, para quem o ouviu dizer qual a canção de Roberto Carlos era de sua preferência e confidenciar que a sua velocidade preferida era “200 quilômetros por hora”, jamais poderia deixar de escrever um livro sobre as suas vitórias na Fórmula 1, e ele nos deixou vários testemunhos:

“No que diz respeito ao empenho, ao compromisso, ao esforço, à dedicação, não existe meio termo”; “Somos insignificantes e por mais que você programe sua vida, a qualquer momento tudo pode mudar”; “Na adversidade, uns desistem, enquanto outros batem recordes”; “Não sei dirigir de outra maneira que não seja de forma arriscada; quando tiver de ultrapassar, vou ultrapassar mesmo; cada piloto tem o seu limite, o meu é um pouco acima dos outros”.

“A gente muda, envelhece, sofre e passa por momentos felizes, mas uma coisa não mudou nesses anos todos: meus princípios”; “Ou você se compromete com o objetivo da vitória, ou não”; “Eu me expresso com o coração, e não com a cabeça, falo com os olhos, com os gestos, dividindo as emoções”; “Mulheres, com elas uma encrenca, mas sem elas não se pode viver”. “O medo me fascina!”. “O dia que chegar, chegou, pode ser hoje ou daqui a cinquenta anos, a única coisa certa é que ele vai chegar”.

“Vocês nunca conseguirão saber como um piloto se sente quando vence uma prova; o capacete oculta sentimentos incompreensíveis”; “Seja você quem for, seja qual for a sua posição social que você tenha na vida, a mais alta ou a mais baixa, tenha sempre, como meta, muita força, muita determinação e sempre faça tudo com muito amor e muita fé em Deus, que um dia você chega lá, de alguma maneira você chega lá!”

Ele viveu uma vida intensa no circuito da Fórmula 1 e conviveu com o perigo com absoluta tranquilidade, sem, contudo, deixar de se fascinar por ambos, mas demonstrava que havia vencido com os seus próprios méritos, superado as adversidades e deixado um testemunho como um dos seres mais admirados do Planeta, não apenas em seu tempo, e, no futuro, quando alguém pesquisar sobre os Grandes Prêmios, por certo, encontrará a sua biografia como um dos maiores pilotos da História do Automobilismo Internacional.

Com uma trajetória simples, marcada pelo sentido religioso e pelos laços familiares, ele deixou um legado de honra, caráter, humildade e obstinação que o acompanhou como uma marca indelével de sua forte personalidade, mas, sobretudo, como um cidadão do bem, um homem pleno, bom, generoso, honesto e realizado em seus propósitos e sempre cercado por belas mulheres, com quem também compartilhou inúmeros momentos de prazer e alegria, além de muitos amigos, e, sempre que tinha um tempo disponível, estava com a família, em São Paulo.

Assim, por uma possível cumplicidade do destino, sentei-me a seu lado, em uma surpreendente tarde de domingo, quando lhe fiz as mesmas perguntas que havia décadas fazia a dezenas de pessoas, e, generosamente, ele respondeu, fazendo duas surpreendentes revelações: a canção de Roberto Carlos de que mais gostava e que havia marcado um importante momento em sua vida e, principalmente, a emblemática “velocidade de sua preferência”, que, como uma premonição, foi a mesma do exato momento quando beijou a face da eternidade.
Capítulo do livro ROBERTO CARLOS – AS CANÇÕES QUE VOCÊ FEZ PRA MIM, do escritor Maciel de Aguiar.
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2 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns, Maciel, pelo belíssimo texto e da sorte que teve ao se encontrar com o maior ídolo brasileiro do automobilismo mundial e poder entrevistá-lo.

  2. Paz e Bem a todos!

    Brilhante, excelente oportunidade e belo retrato em que, o talentoso escritor Marciel de Aguiar, descreve emocionante viver de um ilustre brasileiro e campeão, “Ayrton Senna do Brasil”.

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