Peroá de Fone #12: Viva a língua Tupinikim

Selecionado pela Lei Aldir Blanc, o projeto "Língua Viva – Imagens em Movimento em Debate" reúne estudiosos, artistas e lideranças indígenas para revitalizar a língua Tupinikim

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Crédito: Colagem com fotos/Divulgação projeto Língua Viva

O censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta a existência de 305 etnias e 274 línguas indígenas no país. É o que nos revela o linguista Urutau Guajajara, do povo Tenetehara e especialista em línguas do tronco Tupi, a maior família linguística dos povos originários. Dos Tenetehara, da aldeia Maracanã, no Rio de Janeiro, aos Tupinkim, das aldeias Caieras Velha e Amarelo, em Aracruz, no Espírito Santo, o falar vem desse mesmo tronco. No caso das comunidades espírito-santenses, o Tupinhe’enga.

Por essas bandas, Jocelino Quiezza, ou Jocelino Tupinikim, liderança de Caieiras Velha em Aracruz, relata a morte de sua bisavó, Gabriela, última falante da língua materna. Professor indígena e mestre em linguística formado pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Jocelino lembra da revelação do professor Eduardo Navarro, que aponta o desaparecimento de mais de mil línguas em meio século, desde a chegada dos colonizadores.

“É claro que com essas línguas desaparecem também os povos”, sucinta o bisneto de Gabriela, que, ao lado de Urutau, é um dos especialistas entrevistados no primeiro episódio do podcast do projeto “Língua Viva – Imagens em Movimento em Debate”, lançado na última quarta-feira (28), em todas as plataformas digitais. Também participa deste encontro a liderança indígena Tiago Matheus Tupinikim, cineasta independente que dirigiu o filme “Bravura e Coração”, estudante de jornalismo e autodidata do tupi antigo.

O projeto é coordenado pela antropóloga Aline Moschen, doutoranda em Antropologia Social Pelo Museu Nacional da UFRJ, e tem a participação de linguistas e artistas indígenas do tronco Tupi. A pesquisadora conversou com o Peroá de Fone e explicou como nasceu o Língua Viva, sua importância, sua meta e porque ele não interessa apenas aos Tupinikim.

“O Língua Viva surgiu do meu trabalho de campo. E uma das coisas que orientam a forma com que eu faço minha pesquisa é estar atenta às demandas das comunidades e ver quais são as reflexões que elas trazem sobre a realidade em que estão inseridas. O povo Tupinikim vem nesse processo de retomada da língua há muitos anos, há décadas. É um trabalho muito difícil, porque a última da língua materna deles faleceu. E esse trabalho que estamos fazendo, que é de tornar pública essa questão e de levar essa demanda para fora das comunidades indígenas, tenta contribuir para isso que já vem sendo feito nas comunidades”, disse.

O trabalho de Aline é fruto de pesquisas que desenvolve junto aos povos indígenas de Aracruz desde 2015. Contar a história, explicar as origens e revelar o que distingue o povo Tupinikim das demais etnias requer profunda interação com seus membros.

Integram o Língua Viva artistas, fotógrafos, poetas, intelectuais, cineastas outros profissionais de uma grande sorte de áreas de atuação, todas voltadas para o saber dos povos originários. Todos debatendo a cultura Tupinikim, partindo do desaparecimento e da retomada de sua língua materna, culminando na resistência e no anseio de se representar, por si próprios, na sociedade contemporânea. Para isso, valem-se das mais variadas ferramentas tecnológicas, formatos e linguagens que permitam expressar traços culturais.

A primeira etapa do projeto foi lançada no dia 20 de abril. Trata-se do site: linguaviva.org. Nele estão reunidos artigos, fotografias e todas as informações sobre a empreitada e seus integrantes. A página também tem o link para o podcast.

E nesta sexta-feira (30), às 19h, acontece a live de lançamento no YouTube, com participação da equipe do Língua Viva e de representantes das secretarias estaduais de Cultura (Secult) e de Educação (Sedu).

Projeto “Língua Viva – Imagens em Movimento em Debate”

  • Acervo digital composto por textos e obras fotográficas de artistas indígenas e disponibilização de podcast com a doutoranda em Antropologia Social Aline Moschen, o linguista indígena Jocelino Tupinikim, o linguista Urutau Guajajara e a liderança indígena Tiago Matheus Tupinikim.
  • Site: www.linguaviva.org
  • Podcast: disponível em todas as plataformas digitais
  • Hoje: Live de lançamento, às 19h, no canal do Projeto Língua Viva no YouTube.

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