Bloco do Amor: a bela história do Roda de Saco, que agitou o carnaval de Itaperuna-RJ nos anos 70

A história do tradicional bloco de carnaval, da região Norte Fluminense, é marcada pela amizade de longa data. Algumas delas sobrevivem até os dias de hoje, praticamente 50 anos depois

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“Vem cá, meu bem. Ponha fim nesta tristeza” – assim cantavam os foliões do bloco Roda de Saco, que iam às ruas em época de Carnaval na cidade de Itaperuna, interior do Rio de Janeiro, no início dos anos 1970. Este é um trecho de uma das músicas compostas pelo engenheiro metalúrgico Francisco Hamilton Antunes Silva, o Hamiltinho, hoje aos 73 anos.

Em 2021, em meio a um momento fúnebre que o Brasil vive, festividades que gerem aglomerações não devem realizadas. Justamente a festa que reúne o povo, a mais popular do país… O que resta, ao menos por agora, enquanto a pandemia persiste, é relembrar com alegria.

A história do Roda de Saco é marcada pela amizade de longa data. Algumas delas sobrevivem até os dias de hoje, praticamente 50 anos depois.

Como surgiu? 

Um dos fundadores, o engenheiro Nivaldo Oliveira Lariú, de 71 anos, se recorda que no fim dos anos 1960 participava de um grupo de jovens de Itaperuna que morava em uma pensão em Niterói. Às vésperas de prestar o vestibular, animação era o que não faltava. Ele conta que sempre voltava à Itaperuna para reencontrar os amigos.

Férias eram sagradas, a gente ia pra lá (Itaperuna). Tinha um bloco, mas não era bem organizado. Na pensão, conversando entre nós, decidimos fazer um bloco. No mesmo espírito, só que melhor, com fantasia e tudo. A ideia se propagou, tínhamos que ter uma música. Convidei o Hamiltinho, ele concordou. Foi um casamento perfeito“, diz Lariú.

Hamilton lembra quando os amigos foram até a casa dele procurá-lo para fazer o samba que todos iriam cantar no bloco.

Falaram: olha, o Hamilton sabe fazer música. Música e letra do nosso bloco, algo original. Eu disse: ‘tudo bem. Me deem um tempinho para tentar compor’. Eles queriam um samba que mostra o bloco, que não era muito conhecido. Eu peguei e fui, busquei inspiração. Apresentei: ‘Roda de Saco, que não pode parar’. Era letra simples. Ensinei a cantarem. Aquilo foi crescendo, de uma tal maneira, e o bloco saiu e arrebentou“, comenta Hamiltinho, que atualmente reside em Volta Redonda.

O grupo ensaiava as músicas em frente ao Kátia’s Lanchonete e também no Ilha Cisne Clube. Em algumas ocasiões, bailes realizados no Tênis Clube, a banda aprendia a tocar o “hino” do ano e fazia a festa entre os que estavam presentes, grande maioria do Roda de Saco, que sabiam a letra de cor.

Anos seguintes 

Nivaldo foi morar e trabalhar em Salvador, na capital baiana, em 1971. Lá também teve carreira como escritor. Dos mais reconhecidos, “Dicionário de Baianês”, é praticamente uma aula da cultura baiana. O bloco continuou.

No mesmo ano, Hamiltinho compôs “Bloco do Amor”. Afinal, a galera estava na flor da idade e curtia ‘trocar’ uns beijos. “O bloco formou uma amizade muito grande, arranjou muitos casamentos. Era o Bloco do Amor mesmo“, fala o compositor.

Em 1972, a canção foi “Samba é Para Quem Sabe“, que fez sucesso na região Norte Fluminense. Hamiltinho fez sambas para mais outros dois carnavais.

Crédito: Reprodução/Facebook

Primo de Nivaldo, Evelson Lariú, de 68 anos, quase não sustenta tanta saudade no peito. Décadas passadas e muitos amigos daqueles dias de folia seguiram suas vidas e carreiras, nas mais diversas áreas de atuação. Deles e das alegrias vividas, garante não esquecer.

“Faz 47 anos que o Roda de Saco desfilou na Passarela do Samba, em Itaperuna. O tempo passa, mas nós do Roda de Saco jamais esqueceremos”, garante o servidor aposentado do Ministério da Fazenda.

Hoje morador de Niterói por recomendação médica, sob o conselho de respirar os ares oceânicos, longe das serras fluminenses, Evelson revirou as caixas ainda cheias da mudança, onde guarda seu tesouro. “Momentos inesquecíveis, inenarráveis”, como descreve o reencontro com o álbum de fotografias desbotadas pelo tempo, porém repletas de cores na lembrança.

“Isso é um pouco do muito que o Roda de Saco representou em nossas vidas. Nesse bloco surgiram muitos namoros e casamentos. Foram cinco anos de carinho, amor e dedicação. Itaperunenses do Brasil inteiro desfilavam no Bloco Roda de Saco. Momentos inesquecíveis e inenarráveis. Saudades”, relata, enquanto exibe uma foto com a rainha do Roda de Saco, Maria Elizabeth Lariú, a Betinha, sua companheira há 50 anos, entre namoro e matrimônio, e o primo Nivisson Lariú (à direita), irmão de Nivaldo.

Novo encontro

Foto: Arquivo Pessoal/Francisco Hamilton Antunes Silva

Os amigos se viram de novo em 2015, em Itaperuna. Todas as músicas daquela época foram cantadas, uma celebração nostálgica.

Quando seriam completos 50 anos da criação do bloco, não houve uma nova reunião. Contudo, Hamiltinho preparou uma nova homenagem: uma canção que reúne versos dos clássicos.

Confira:

*Com contribuição do repórter Erick Alencar

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