Bolsonaro discursa na ONU: saiba o que é fato e o que é falso na fala do Presidente

Bolsonaro deu sete declarações falsas e sete verdadeiras, cinco imprecisas e quatro contraditórias ou exageradas no discurso de abertura da 7ª Assembleia Geral da ONU

0
Presidente Jair Bolsonaro em gravação do discurso para a 75ª Assembleia Geral da ONU (Foto: Marcos Corrêa/Presidência da República)

O presidente Jair Bolsonaro abriu, nesta terça-feira (22), a 75ª Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU). Em seu discurso, o presidente afirmou que o Brasil é “vítima” de uma campanha “brutal” de desinformação sobre a Amazônia e o Pantanal.

Por conta da pandemia do novo coronavírus, a fala de Bolsonaro foi gravada e transmitida em telão na sede da ONU, em Nova York, que realizou transmissão virtual dos discursos dos líderes mundiais.

Além de criticar a abordagem internacional sobre sua política ambiental, o presidente disse que a floresta amazônica é úmida e “não permite a propagação do fogo em seu interior”, acusando “o caboclo e o índio” provocar queimadas. Também afirmou que, em 2019, o Brasil foi “vítima de um criminoso derramamento de óleo venezuelano” no litoral nordestino.

Bolsonaro começou o discurso lamentando as mortes causadas pela Covid-19 no mundo, elogiando as medidas adotadas por seu governo para amenizar o impacto econômico, como o auxílio emergencial de R$ 600 (inicialmente, o Planalto propôs o valor de R$ 200, com o Congresso exigindo mais até chegar à quantia hoje paga aos credenciados), mas disse que as orientações para as pessoas ficarem em casa na pandemia “quase” levaram o país ao “caos social”.

Também afirmou que o Brasil é um país cristão e conservador e que a “cristofobia” deve ser combatida e parabenizou o “Plano de Paz e Prosperidade” lançado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para solucionar o conflito entre Israel e Palestina.

Confira a seguir o discurso de Jair Bolsonaro na íntegra, com análise da Agência Aos Fatos de checagem da veracidade das afirmações do presidente:

“Senhor presidente da Assembleia Geral, Volkan Bozkir;

Senhor secretário-geral da ONU, António Guterres, a quem tenho a satisfação de cumprimentar em nossa língua-mãe;

Chefes de Estado, de governo e de delegação;

Senhoras e senhores,

É uma honra abrir esta assembleia com os representantes de nações soberanas, num momento em que o mundo necessita da verdade para superar seus desafios.

A Covid-19 ganhou o centro de todas as atenções ao longo deste ano e, em primeiro lugar, quero lamentar cada morte ocorrida.

Desde o princípio, alertei, em meu País, que tínhamos dois problemas para resolver: o vírus e o desemprego, e que ambos deveriam ser tratados simultaneamente e com a mesma responsabilidade.

  • FALSO: Bolsonaro disse desde o início da pandemia que o novo coronavírus traria problemas econômicos e de saúde pública para o Brasil, como aponta levantamento feito pela Agência Aos Fatos em suas falas nas redes sociais, que encontrou declarações como esta desde o dia 15 de março, quando o presidente concedeu entrevista à CNN Brasil. Porém, Jair Bolsonaro, não tratou as duas questões com a mesma importância, pois, desde a chegada da Covid-19 ao Brasil, ele tem minimizado os impactos da doença. O presidente deu entrevistas e declarações públicas em que relacionava a enfermidade que já matou mais de 137 mil brasileiros com uma “gripezinha”, afirmando ainda, em discurso realizado no dia 18 de setembro, que o isolamento social seria “conversinha mole” e que medidas de restrição de circulação de pessoas seriam para “os fracos”. Bolsonaro também desrespeitou recomendações sanitárias ao causar aglomerações e circular sem equipamento de proteção. Valor Econômico UOL

Por decisão judicial, todas as medidas de isolamento e restrições de liberdade foram delegadas a cada um dos 27 governadores das unidades da Federação. Ao Presidente, coube o envio de recursos e meios a todo o País.

  • FALSO: O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu apenas que o governo federal deveria respeitar a autonomia de estados e municípios nas medidas de isolamento social contra a Covid-19, mantendo assim o dever compartilhado de todas as instâncias do poder público no combate à pandemia. Um exemplo: foi decisão do governo federal de fechar fronteiras com países vizinhos. Segundo o contador do Aos Fatos, Bolsonaro já repetiu tal argumentação falsa mais de 50 vezes. Agência Brasil

Como aconteceu em grande parte do mundo, parcela da imprensa brasileira também politizou o vírus, disseminando o pânico entre a população. Sob o lema “fique em casa” e “a economia a gente vê depois”, quase trouxeram o caos social ao país.

Nosso governo, de forma arrojada, implementou várias medidas econômicas que evitaram o mal maior:

– Concedeu auxílio emergencial em parcelas que somam aproximadamente 1000 dólares…

  • EXAGERADO: Pago desde abriu deste ano, o auxílio emergencial terá, ao todo, nove parcelas (cinco de R$ 600 e quatro de R$ 300), resultando em benefício no valor de R$ 4.200. Na cotação do dólar desta segunda-feira (21), com US$ 1 a R$ 5,44, segundo o Banco Central, o total das parcelas do auxílio emergencial soma US$ 771,49. Desta forma, Bolsonaro inflou em 29,6% o valor do auxílio concedido pelo governo. Governo Federal Banco Central

… para 65 milhões de pessoas, o maior programa de assistência aos mais pobres no Brasil e talvez um dos maiores do mundo;

  • VERDADEIRO: Até esta terça-feira (22), 67,2 milhões de pessoas foram beneficiadas com pagamento de parcelas do auxílio emergencial, de acordo com boletim da Caixa Econômica Federal publicado na manhã de hoje. O número é próximo ao apresentado pelo presidente. Segundo o banco estatal, até o momento já foram feitos 291,5 milhões de pagamentos do benefício, somando R$ 201,3 bilhões. Caixa Econômica Federal

– Destinou mais de 100 bilhões de dólares para ações de saúde, socorro a pequenas e microempresas, assim como compensou a perda de arrecadação dos estados e municípios;

– Assistiu a mais de 200 mil famílias indígenas com produtos alimentícios e prevenção à Covid;

  • IMPRECISO: É fato que o governo federal tem entregue alimentos para indígenas. Em publicação do dia 3 de julho, por exemplo, é dito que 250 mil cestas básicas haviam sido liberadas para serem entregues a 154 mil famílias que vivem em 3 mil comunidades indígenas. No início de setembro, o número de cestas básicas havia saltado para 414 mil e o total de kits de higiene e limpeza, para 68 mil. Entretanto, a declaração foi considerada IMPRECISA, porque, em julho, o presidente havia vetado na lei nº 14.021 medidas de proteção a povos indígenas que incluíam a obrigação de o Estado garantir acesso a água potável e distribuição gratuita de alimentos, materiais de higiene, limpeza e desinfecção para as aldeias. Além de não ser obrigado a instalar internet e garantir leitos hospitalares e ventiladores para respiração mecânica. Em 27 de agosto, o Congresso derrubou o veto, e as medidas retornaram ao texto da lei. FUNAI Poder360

– Estimulou, ouvindo profissionais de saúde, o tratamento precoce da doença;

– Destinou 400 milhões de dólares para pesquisa, desenvolvimento e produção da vacina de Oxford no Brasil;

  • VERDADEIRO: O governo brasileiro destinou um valor próximo a US$ 400 milhões para desenvolvimento, pesquisa e produção da vacina contra a Covid-19 produzida pela Universidade de Oxford em parceria com a farmacêutica AstraZeneca. A medida provisória (MP 994/2020) que libera o recurso foi assinada pelo presidente Jair Bolsonaro no início de agosto e prevê crédito orçamentário extraordinário de R$ 1,994 bilhão – pela cotação do dólar americano nesta terça-feira (22), pouco mais de US$ 368 milhões. O acordo prevê a transferência de tecnologia para a produção da vacina no Brasil pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Ministério da Saúde Senado

Não faltaram, nos hospitais, os meios para atender aos pacientes de Covid.

A pandemia deixa a grande lição de que não podemos depender apenas de umas poucas nações para produção de insumos e meios essenciais para nossa sobrevivência. Somente o insumo da produção de hidroxicloroquina sofreu um reajuste de 500% no início da pandemia. Nesta linha, o Brasil está aberto para o desenvolvimento de tecnologia de ponta e inovação, a exemplo da indústria 4.0, da inteligência artificial, nanotecnologia e da tecnologia 5G, com quaisquer parceiros que respeitem nossa soberania, prezem pela liberdade e pela proteção de dados.

No Brasil, apesar da crise mundial, a produção rural não parou. O homem do campo trabalhou como nunca, produziu, como sempre, alimentos para mais de 1 bilhão de pessoas.

O Brasil contribuiu para que o mundo continuasse alimentado.

Nossos caminhoneiros, marítimos, portuários e aeroviários mantiveram ativo todo o fluxo logístico para distribuição interna e exportação.

Nosso agronegócio continua pujante e, acima de tudo, possuindo e respeitando a melhor legislação ambiental do planeta.

Mesmo assim, somos vítimas de uma das mais brutais campanhas de desinformação sobre a Amazônia e o Pantanal.

  • CONTRADITÓRIO: Ainda que o presidente não especifique os autores dessa suposta campanha de desinformação, a declaração foi considerada CONTRADITÓRIA porque o próprio Bolsonaro tem se mostrado um dos principais disseminadores de desinformação sobre questões ambientais. De acordo com levantamento do Aos Fatos, o presidente deu 127 declarações falsas ou distorcidas sobre meio ambiente desde o início do governo. Como mostra análise publicada pelo Aos Fatos, grande parte dessa desinformação está ancorada na repetição sistemática de afirmações falsas — o presidente repetiu ao menos seis vezes desde o início do mandato, por exemplo, que a floresta amazônica, por ser úmida, não poderia ser incendiada, e ao menos dez vezes que a média de focos de incêndio de 2019 estaria abaixo da registrada nos anos anteriores. No caso do Pantanal, a estratégia parece se repetir: o Aos Fatos já verificou que, embora Bolsonaro diga que os incêndios na região são corriqueiros, os focos registrados em 2020 são os maiores da série histórica, que começou em 1998; assim como não ocorreu o que ele alega ser um dos motivos das queimadas, a proibição da criação extensiva de gado no bioma. Aos Fatos Aos Fatos

A Amazônia brasileira é sabidamente riquíssima. Isso explica o apoio de instituições internacionais a essa campanha escorada em interesses escusos que se unem a associações brasileiras, aproveitadoras e impatrióticas, com o objetivo de prejudicar o governo e o próprio Brasil.

Somos líderes em conservação de florestas tropicais.

  • INSUSTENTÁVEL: Aos Fatos não encontrou nenhum levantamento mundial que compare a preservação de florestas tropicais entre países, por isso a declaração foi considerada INSUSTENTÁVEL. Na verdade, um estudo da Universidade de Maryland mostrou que, em 2019, o Brasil foi o país tropical que mais perdeu florestas primárias. Foram 1,3 milhão de hectares, quase o triplo do registrado na República do Congo no mesmo período. O Banco Mundial só possui dados referentes à área florestal total conservada e, nesse caso, o Brasil ocupava, em 2016, a 30ª posição no ranking de 251 países, com 58,9% de preservação. FAO Banco Mundia

Temos a matriz energética mais limpa e diversificada do mundo.

  • FALSO: Segundo o Atlas de Energia da IEA (Associação Internacional de Energia), organização vinculada à OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o Brasil tinha, em 2018, 45% do suprimento de energia decorrente de fontes renováveis, como energia solar, eólica e hidrelétrica. É uma proporção maior que a de nações como Estados Unidos (8%), Canadá (17%) e França (10%). Mas é menor que a de Islândia (89%), Moçambique (78%) e Noruega (49%), por exemplo. Na manhã desta terça-feira (22), o levantamento da IEA estava fora do ar e, por isso, não foi possível verificar o trecho sobre diversificação das fontes energéticas. A checagem será atualizada assim que o site voltar ao ar. IEA Aos Fatos

Mesmo sendo uma das 10 maiores economias do mundo, somos responsáveis por apenas 3% da emissão de carbono.

  • IMPRECISO: Segundo números disponíveis em bases de dados internacionais, a proporção das emissões brasileiras é até menor. De acordo com o Banco Mundial, em 2016, o Brasil era responsável por cerca de 1,3% das emissões de gás carbônico no mundo, dado similar ao de uma pesquisa publicada pela Comissão Europeia em 2018. No entanto, apesar do número aparentemente pequeno, esta proporção já é suficiente para colocar o Brasil entre os 15 maiores emissores de gás carbônico do mundo, por isso a afirmação foi considerada IMPRECISA. Banco Mundial Comissão Europeia

Garantimos a segurança alimentar a um sexto da população mundial, mesmo preservando 66% de nossa vegetação nativa e usando apenas 27% do nosso território para a pecuária e agricultura. Números que nenhum outro país possui.

  • VERDADEIRO: Segundo a Embrapa Territorial, o Brasil tinha, em 2019, 66,3% da vegetação nativa preservada, o que totaliza uma área de 632 milhões de hectares.De acordo com dados da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), o Brasil ocupa cerca de 28,3% de sua área total com atividades ligadas à agricultura. Embrapa FAO

O Brasil desponta como o maior produtor mundial de alimentos.

E, por isso, há tanto interesse em propagar desinformações sobre o nosso meio ambiente.

Estamos abertos para o mundo naquilo que melhor temos para oferecer, nossos produtos do campo. Nunca exportamos tanto. O mundo cada vez mais depende do Brasil para se alimentar.

  • VERDADEIRO: As exportações especificamente do agronegócio bateram recorde histórico no acumulado entre janeiro e agosto, chegando a US$ 69,9 bilhões, e é nesse contexto que Aos Fatos classifica a afirmação como VERDADEIRA. Porém, de acordo com os dados disponíveis na plataforma Comex Stat, do próprio governo federal, não é possível dizer genericamente que “nunca exportamos tanto”. A plataforma apresenta uma série histórica que começa em 1997 e vai até 2020. De lá para cá, em vários anos o patamar de exportações foi superior ao registrado até agora neste ano (US$ 138,3 bilhões) e acima também da última projeção feita pelo próprio governo (US$ 202,5 bilhões). Além disso, apesar de as exportações terem avançado em agosto, o valor acumulado nos oito primeiros meses do ano ainda é 6,6% inferior ao do mesmo período de 2019. Comex Stat O Globo

Nossa floresta é úmida e não permite a propagação do fogo em seu interior. Os incêndios acontecem praticamente, nos mesmos lugares,…

  • FALSO: A floresta amazônica é, de fato, ultraúmida, mas a ação humana provoca a combustão das queimadas. Dados da ONG Ipam e da Nasa, agência espacial americana, indicam que os focos de incêndio que atingiram a região em 2019 aconteceram em áreas previamente desmatadas. Essa seria, segundo a bióloga Erika Berenguer, a única forma de incendiar a floresta. No processo de desmatamento, a vegetação é derrubada, colocada ao sol para secar e, então, queimada para a limpeza da área. BBC Brasil UOL

… no entorno leste da Floresta,

  • IMPRECISO: Apesar de dados de satélites do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) mostrarem acúmulo de focos de incêndio no entorno leste da floresta (o Pará registrou 24.085 pontos de queimada entre 1º de janeiro e 21 de setembro, grande parte deles no leste do estado), não é apenas essa região que apresenta incêndios. Estados como o Acre (6.728 focos) e o Amazonas (14.512 focos), por exemplo, também registraram altas taxas de queimadas ao longo deste ano. Situação similar pode ser observada no ano anterior, por exemplo, quando o Acre teve, no mesmo período, 5.970 focos de incêndio, e o Amazonas, 10.932. Também é impreciso dizer que os incêndios sempre ocorrem nos mesmos lugares. Contatado por Aos Fatos, o pesquisador do programa Queimadas do Inpe Alberto Setzer explicou que “um mesmo local pode pegar fogo mais de uma vez, desde que a vegetação volte a crescer e seja novamente queimada, o que certamente necessita alguns meses”. Inpe

… onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência,…

  • IMPRECISO: Nota técnica do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) mostrou que apenas 7% das queimadas no ano passado ocorreram em terras indígenas.Ao menos no Pantanal, a suspeita da PF (Polícia Federal) até o momento é de que as queimadas foram feitas de forma criminosa, a partir de fazendas, para abrir pastagens para a pecuária. Ou seja, não há quaisquer indícios de que sejam caboclos ou índios os responsáveis pelas queimadas, embora ainda não haja condenação. Na Amazônia, em 2019, a PF investigava o “Dia do Fogo”, quando fazendeiros teriam se juntado para fazer queimadas em áreas de floresta no interior do Pará. Neste ano, em live em julho, Bolsonaro já tinha atribuído o fogo na Amazônia a indígenas, caboclos e ribeirinhos, sem apresentar nenhuma prova. Na semana passada, o Aos Fatos publicou checagem comprovando que a foto de um índio ateando fogo a um campo mostra uma queima controlada, processo que pode servir para preparar o solo para o plantio e que é diferente de um incêndio criminoso para abrir espaço para a criação de gado. IPAM UOL O Globo

… em áreas já desmatadas.

  • IMPRECISO: Bolsonaro parece fazer menção a um levantamento da Embrapa segundo o qual 90% dos focos de incêndio na Amazônia ocorreram em locais já desmatados. Apesar de ter sido divulgado no fim de julho, o levantamento é baseado em dados de 2019. Além disso, a Embrapa atribui as queimadas a pequenos produtores rurais, não a caboclos e índios. Estadão

Os focos criminosos são combatidos com rigor e determinação.

  • FALSO: Ao longo do primeiro ano da gestão Bolsonaro, o número de autuações ambientais aplicadas pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) caiu em 34%, menor quantidade em 24 anos, de acordo com reportagem da Folha de São Paulo. Em valores arrecadados, a queda foi de 43,3%. Em depoimentos prestados ao MPF (Ministério Público Federal) em julho deste ano, o ex-coordenador geral de Fiscalização Ambiental do Ibama, Rene Luiz de Oliveira, e o ex-coordenador de operação e fiscalização, Hugo Loss, afirmaram que a pressão exercida pelo presidente e pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, contra o combate a crimes ambientais gerou um ambiente de insegurança dentro do órgão, o que levou a uma redução nas autuações. Houve, ainda, de acordo com os ex-servidores, ações sistemáticas de corte de orçamento e cargos que sucatearam a atividade do órgão ao longo de 2019. Desde a campanha presidencial, Bolsonaro também tem se manifestado contra o que chamava de “farra das multas”. Isso também se refletiu em atitudes tomadas pelo governo, que instituiu no ano passado o Núcleo de Conciliação Ambiental, espécie de tribunal que pode anular a autuação dos agentes de fiscalização. Folha de São Paulo O Globo

Juntamente com o Congresso Nacional, buscamos a regularização fundiária, visando identificar os autores desses crimes.

  • IMPRECISO: No fim de 2019, Bolsonaro publicou a Medida Provisória n° 910, que ampliava o tamanho das propriedades que poderiam ser regularizadas sem vistoria prévia. A MP também previa que estas terras deveriam passar por vistoria caso a propriedade fosse alvo de “termo de embargo ou de infração ambiental, lavrado pelo órgão ambiental federal”. Apesar de a MP definir parâmetros de respeito ao meio ambiente para a regularização de terras, não há nada no texto que permita afirmar que a legislação ajudaria a identificar autores de crimes ambientais. Para ambientalistas e o Ministério Público, a MP fazia justamente o contrário: legitimava a grilagem e facilitava a regularização de terras desmatadas. A medida não foi votada pelo Congresso e caducou em maio. Agência Senado UOL

Lembro que a Região Amazônica é maior que toda a Europa Ocidental. Daí a dificuldade em combater, não só os focos de incêndio, mas também a extração ilegal de madeira e a biopirataria. Por isso, estamos ampliando e aperfeiçoando o emprego de tecnologias e aprimorando as operações interagências, contando, inclusive, com a participação das Forças Armadas.

O nosso Pantanal, com área maior que muitos países europeus, assim como a Califórnia, sofre dos mesmos problemas. As grandes queimadas são consequências inevitáveis da alta temperatura local, somada ao acúmulo de massa orgânica em decomposição.

  • FALSO: Por mais que a região do Pantanal tenha sofrido com a alta temperatura e a baixa umidade relativa do ar, Bolsonaro omite que a hipótese principal das investigações é a de que os incêndios sejam criminosos. Segundo o inquérito da PF (Polícia Federal) divulgado pelo Fantástico, imagens de satélite mostram que o início das queimadas se deu em quatro fazendas da região. Além disso, a fala do presidente sugere que o fogo no Pantanal seria corriqueiro, o que esconde que os focos registrados em 2020 são os maiores da série histórica, que começou em 1998. Até o dia 21 de setembro, o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) identificou 16.119 focos de calor no bioma. O recorde anterior era de 2005 que, entre 1º de janeiro e 31 de dezembro, registrou 12.536 focos. G1 Inpe

A nossa preocupação com o meio ambiente vai além das nossas florestas. Nosso Programa Nacional de Combate ao Lixo no Mar, um dos primeiros a serem lançados no mundo, cria uma estratégia para os nossos 8.500 quilômetros de costa.

Nessa linha, o Brasil se esforçou na COP25 em Madri para regulamentar os artigos do Acordo de Paris que permitiriam o estabelecimento efetivo do mercado de carbono internacional. Infelizmente, fomos vencidos pelo protecionismo.

Em 2019, o Brasil foi vítima de um criminoso derramamento de óleo venezuelano, vendido sem controle, acarretando severos danos ao meio ambiente e sérios prejuízos nas atividades de pesca e turismo.

  • FALSO: Por mais que uma das hipóteses, defendida pela Petrobras e por estudo da Universidade Federal da Bahia e presente nas conclusões de investigação conduzida pela Marinha, aponte que o petróleo que poluiu o litoral brasileiro na metade de 2019 tinha origem venezuelana, não foi possível determinar até o momento nem se o país teve envolvimento no derramamento nem se a ação foi de cunho criminoso, como sugere o presidente em sua declaração. Ao apresentar os resultados da investigação sobre o caso no fim de agosto deste ano, a Marinha alegou que o óleo navegou por 700 km até a costa brasileira e que tinha origem venezuelana, mas não necessariamente foi lançado por empresas ou embarcações do país. Investigação paralela conduzida por pesquisadores da UFAL (Universidade Federal de Alagoas), por sua vez, indica que o óleo pode ter vindo de uma região próxima a Camarões, na África, mais especificamente do Golfo da Guiné, local de exploração de petróleo e tráfego de navios. A presença de uma corrente oceânica chamada corrente de Benguela, que em determinada época do ano conflui para o Nordeste do Brasil, poderia explicar o caminho percorrido pela mancha. Nada, no entanto, ficou provado. G1 Agência Pública

O Brasil considera importante respeitar a liberdade de navegação estabelecida na Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar.

Entretanto, as regras de proteção ambiental devem ser respeitadas e os crimes devem ser apurados com agilidade, para que agressões como a ocorrida contra o Brasil não venham a atingir outros países.

Não é só na preservação ambiental que o país se destaca. No campo humanitário e dos direitos humanos, o Brasil vem sendo referência internacional pelo compromisso e pela dedicação no apoio prestado aos refugiados venezuelanos, que chegam ao Brasil a partir da fronteira no estado de Roraima.

A Operação Acolhida, encabeçada pelo Ministério da Defesa, recebeu quase 400 mil venezuelanos deslocados devido à grave crise político-econômica gerada pela ditadura bolivariana.

Com a participação de mais de 4 mil militares, a Força Tarefa Logística-Humanitária busca acolher, abrigar e interiorizar as famílias que chegam à fronteira.

Como um membro fundador da ONU, o Brasil está comprometido com os princípios basilares da Carta das Nações Unidas: paz e segurança internacional, cooperação entre as nações, respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais de todos.

  • CONTRADITÓRIO: A declaração de Bolsonaro contradiz ações que vêm sendo adotadas por seu governo, principalmente quando o assunto é direitos humanos. Em dezembro de 2019, o Conselho Nacional dos Direitos Humanos apontou que o governo de Jair Bolsonaro havia violado 36 vezes o Programa Nacional de Direitos Humanos do início do mandato, em janeiro, até novembro daquele ano. O documento listou como exemplos o retrocesso no combate à tortura e o desmonte da Comissão de Anistia e da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Outra instituição que denunciou o governo por ir contra os direitos humanos foi a Anistia Internacional. Em seu relatório sobre o tema, publicado em 2019, a organização afirma que o governo federal “colocou em prática a retórica abertamente contrária aos direitos humanos empregada pelo presidente Bolsonaro na campanha eleitoral de 2018”. Cita também o aumento de assassinatos cometidos por policiais e a intenção de restringir as atividades e as organizações da sociedade civil. Sobre a cooperação entre nações, o Brasil foi um dos únicos países a não assinar o acordo de cooperação contra o coronavírus, em abril deste ano. Dos 193 membros da ONU (Organização das Nações Unidas), apenas 14, entre eles o Brasil, não patrocinaram a resolução que visava garantir o acesso global a medicamentos e vacinas. UOL Anistia Internacional

Neste momento em que a organização completa 75 anos, temos a oportunidade de renovar nosso compromisso e fidelidade a esses ideais. A paz não pode estar dissociada da segurança.

A cooperação entre os povos não pode estar dissociada da liberdade. O Brasil tem os princípios da paz, cooperação e prevalência dos direitos humanos inscritos em sua própria Constituição, e tradicionalmente contribui, na prática, para a consecução desses objetivos.

O Brasil já participou de mais de 50 operações de paz e missões similares, tendo contribuído com mais de 55 mil militares, policiais e civis, com participação marcante em Suez, Angola, Timor Leste, Haiti, Líbano e Congo.

O Brasil teve duas militares premiadas pela ONU na Missão da Republica Centro-Africana pelo trabalho contra a violência sexual.

Seguimos comprometidos com a conclusão dos acordos comerciais firmados entre o MERCOSUL e a União Europeia e com a Associação Europeia de Livre Comércio. Esses acordos possuem importantes cláusulas que reforçam nossos compromissos com a proteção ambiental.

Em meu governo, o Brasil, finalmente, abandona uma tradição protecionista e passa a ter na abertura comercial a ferramenta indispensável de crescimento e transformação.

  • CONTRADITÓRIO: A declaração foi considerada CONTRADITÓRIA, porque, por mais que defenda a abertura comercial e o fim do protecionismo, o governo federal já adotou medidas que vão na contramão desse discurso. Reportagem da Folha de S.Paulo de agosto do ano passado mostrou que, desde o início do mandato, o presidente havia prorrogado sete medidas antidumping — para prevenir que empresas exportem produtos por preço abaixo do praticado no mercado de origem — e aplicado três novas. Além disso, o presidente já mostrou cautela ao tratar, em discursos, da abertura comercial do país. Em visita à Índia em janeiro deste ano, Bolsonaro disse: “O [Paulo] Guedes já me disse que se fizer de uma hora para outra [a abertura comercial] ele quebra a indústria nacional. Tem que ser devagar”. Folha de São Paulo O Globo

Reafirmo nosso apoio à reforma da Organização Mundial do Comércio que deve prover disciplinas adaptadas às novas realidades internacionais.

Estamos igualmente próximos do início do processo oficial de acessão do Brasil à OCDE. Por isso, já adotamos as práticas mundiais mais elevadas em todas as áreas, desde a regulação financeira até os domínios da segurança digital e da proteção ambiental.

No meu primeiro ano de governo, concluímos a reforma da previdência e, recentemente, apresentamos ao Congresso Nacional duas novas reformas: a do sistema tributário e a administrativa.

Novos marcos regulatórios em setores-chave, como o saneamento e o gás natural, também estão sendo implementados. Eles atrairão novos investimentos, estimularão a economia e gerarão renda e emprego.

O Brasil foi, em 2019, o quarto maior destino de investimentos diretos em todo o mundo.

  • VERDADEIRO: É verdade que o Brasil ficou em quarto lugar no ranking de destino de investimentos estrangeiros em 2019. A informação, divulgada em janeiro pela Unctad (Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento), mostra que o país recebeu US$ 75 bilhões em investimentos externos contra US$ 60 bilhões em 2018, ano no qual ocupou a 6ª posição. O número coloca o Brasil atrás apenas de Estados Unidos, China e Cingapura. Unctad Unctad

E, no primeiro semestre de 2020, apesar da pandemia, verificamos um aumento do ingresso de investimentos, em comparação com o mesmo período do ano passado. Isso comprova a confiança do mundo em nosso governo.

  • FALSO: Dados do Banco Central não indicam o aumento do ingresso de investimentos diretos no país mesmo com a pandemia de Covid-19. Segundo a instituição, nos primeiros seis meses de 2019, o Brasil recebeu US$ 66,2 bilhões em investimentos. Em 2020, no entanto, o Banco Central registrou US$ 61,4 bilhões, número cerca de 7,3% menor. Banco Central

O Brasil tem trabalhado para, em coordenação com seus parceiros sul-atlânticos, revitalizar a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul.

O Brasil está preocupado e repudia o terrorismo em todo o mundo.

Na América Latina, continuamos trabalhando pela preservação e promoção da ordem democrática como base de sustentação indispensável para o progresso econômico que desejamos.

A liberdade é o bem maior da humanidade.

Faço um apelo a toda a comunidade internacional pela liberdade religiosa e pelo combate à “cristofobia”.

Também quero reafirmar minha solidariedade e apoio ao povo do Líbano pelas recentes adversidades sofridas.

Cremos que o momento é propício para trabalharmos pela abertura de novos horizontes, muito mais otimistas para o futuro do Oriente Médio.

Os acordos de paz entre Israel e os Emirados Árabes Unidos, e entre Israel e o Bahrein, três países amigos do Brasil, com os quais ampliamos imensamente nossas relações durante o meu governo, constitui excelente notícia.

O Brasil saúda também o Plano de Paz e Prosperidade lançado pelo Presidente Donald Trump, com uma visão promissora para, após mais de sete décadas de esforços, retomar o caminho da tão desejada solução do conflito israelense-palestino.

A nova política do Brasil de aproximação simultânea a Israel e aos países árabes converge com essas iniciativas, que finalmente acendem uma luz de esperança para aquela região.

O Brasil é um país cristão e conservador e tem na família sua base.

Deus abençoe a todos!

E o meu muito obrigado!”

* A checagem das afirmações do presidente Jair Bolsonaro em seu discurso na 75ª Assembleia Geral da ONU foi realizada pela agência Aos Fatos. Também foram utilizadas informações do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM).

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui