Uma escadaria para o céu

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Foto: Arquivo/MemóriaCapixabaPartiu, pois, Jacó de Berseba,… E chegou a um lugar onde passou a noite, porque já o sol era posto; e tomou uma das pedras daquele lugar, e a pôs por cabeceira, e deitou-se naquele lugar. E sonhou: E eis que era posta na terra uma escada cujo topo tocava nos céus; e eis que os anjos de Deus subiam e desciam por ela. E eis que o SENHOR estava em cima dela e disse: Eu sou o SENHOR, o Deus de Abraão, teu pai, e o Deus de Isaque. Esta terra em que estás deitado te darei a ti e à tua semente

Gênesis. 28.10-12.

Para uma cidade provinciana, uma grande obra, uma complexa realização.

Uma larga escadaria urbana, partindo da terra, do chão da rua, do Rosário, recém alinhada, sobe aos céu, nublado, eleva os cidadãos de Vitória ao alto, atravessando um arco, um portal que parece separar o mundo profano do sagrado.

O percurso, delimitado, ritmado e pontuado por colunas isoladas, redondas, ordena e informa as duras etapas da caminhada a um lugar acima, ganha o topo da colina, e parece se desmanchar em nuvens, desvanecer-se em grisalhas sombras no interior da mata, que guarda e asila, de outros tempos, os espíritos e antigos deuses.

Escadarias, desta forma, foram construídas em várias cidades e lugares no Brasil, feitas em via sacra, ao molde de europeias, ou para dar acesso às capelas e igrejas refugiadas nos altos dos morros. Em Vitória, foi executada para ascender à antiga Igreja da Irmandade de N.S. do Rosário dos Homens Pretos, erguida a partir do século XVIII, e instituída patrimônio histórico nacional.

Tentando superar as duras marcas da vida comum urbana, entre o comércio e o porto, a cidade, início do século XX, promove exaustivo esforço, orientando as suas ruas tortas, retificando os seus sentidos e adornando suas edificações, aos modelos e gostos do mundo moderno, republicano. Esta escada, uma decisão, sonho e projeto coletivo, fez parte desta inovadora tarefa urbana.

Aguardaram, nossos antepassados, ainda aguardamos, que os anjos desçam por seus degraus e confirmem a aliança divina, que concedeu a terra bruta, seus frutos e minerais, aos aventureiros estrangeiros e seus descendentes?

Circulam ainda nestes patamares, os anjos celestes que autorizaram aos colonizadores, massacraram os bugres, índios, pagãos, e expulsaram, para longe, os seus espectros, ninfas e animais mágicos?

Isolada, erguida, inicialmente separada de seus vizinhos, edifícios próximos, destacava-se, escada, matéria informada, como assinatura de uma vontade a superar torpe colonização, refazer o contato rompido com a natureza primitiva, anterior existente, quando surda se fez a voz divina.

Encantada.

Se a foto antiga, ilude o olhar e o destino traçado, de antemão, da cidade, seus restos, hoje, encravados nas marcas gastas da cidade, esperam e aguardam ainda gestos de salvação.

Em 2020, há mais outros desejos a sonhar.?

celebro com os que restam

celebro o que nos resta

entre ruínas e  poesia.

Em fevereiro de 2020. Foto: Google Street View

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