Horas vazias

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O extraordinário do cotidiano é superar o próprio cotidiano

Henri Lebfreve

Impostos, pela quarentena, ao cotidiano mais comum, igual, repetido, desfeitas as distrações dos movimentos inúteis do dia a dia, da circulação apressada, sem sentido, do ilusório consumo das coisas e dos lugares, frente ao compulsório recorte de nossa casa, assombra-nos, como um fantasma, a profunda banalidade da vida.

Comer, assistir a TV, dormir…

No dia a dia, o mesmo tempero, a mesma verdura, o mesmo almoço requentado, a mesma pizza pelo telefone, que nos recordam, em ausência, os profundos gostos e sabores da mesa materna, dos cheiros das comidas no calor do fogão de lenha e o suave toque dos cotovelos assentados sobre a lisa mesa de madeira.

Nas telas, a Netflix repete em sequência uma mesma história, em um streaming infinito, com idênticos roteiros de perdas e reconciliações, anuncia uma sequência de séries, de assassinatos, de crimes e punições, de zumbis e amores românticos, de guerras e heróis, repete, na maioria dos filmes, um mesmo fim, feliz.

Nas leitos, o colchão não contém, macio, o mesmo prazer anterior dos acanhados minutos roubados da rotina e do trabalho, o despertador não cobra mais insistente, o esforço de levantar-se apressado, e sobra, à consciência desperta, um maior número de horas a serem preenchidas, livres, vazias.

Assustados, afastamo-nos, diante do olhar da tela, que não nos reconhece, na ausência dos ruídos da multidão, das presenças das ruas, da ressonância da convivência nas lojas, nas escolas e nos bares.

Contemplamos, preocupados, como a comunicação digital está debilitando o vínculo comunitário, desfazendo o saber corporal e desvanecendo uma memória e uma identidade corpórea, individuais e comuns, que consolidaram práticas, rituais e encenações coletivas.

Mas, o isolamento social está estimulando inusitados pequenos prazeres da vida doméstica, quando o espelho duplica os mesmos lugares, repete conhecidas imagens, e nos ensina, ao ritmo solar de cada dia, outros gestos, mais lentos, apurados, elaborados. Gestos de pequenos afazeres comuns, da limpeza da casa, da feitura da comida, da leitura solitária, do desenho do bordado sem fim, que aguarda o retorno de Ulisses. Gestos silenciosos de afetos e carinhos.

Encerrados em nossa casa, fustigamos outros gostos e interesses, que provocam o desfrute dos prazeres de uma vida cotidiana, o reconhecimento dos sentidos no discreto, no insipido, no banal, quando, escreve Byung-Chul Han, em seu novo recente livro La desaparición de los rituales: Una topología del presente: ‘La repetición descubre una intensidad en lo no excitante, en lo discreto, en lo insípido, faz habitável o tempo, nos permite celebrar o tempo e viver a experiência profunda do simbólico.

Para quem espera sempre o novo, estimulado pelas informações  acumuladas da economia neoliberal, que elimina a duração das emoções, para ampliar o consumo, por cima do que já existe, “El sentido, es decir, el camino, es repetible,….. aunque al mismo tiempo algo me ha dado una alegría al entrarme por el rabillo del ojo (la luz del día o el crepúsculo).

Incluso una puesta de sol es un acontecimiento y, por tal, irrepetible.”, a ser admirado, novidade, em cada fim de tarde.

Para Han, o capitalismo não gosta da calma, tenta impor, aos corpos e aos espíritos, o ritmo acelerado do trabalho alienado, acelera a comunicação digital e o home office, onde não há mais repouso, onde não há mais sossego, onde não há mais intervalos, onde não há mais silêncios. Pressionados incessantemente a produzir, a “vida fica totalmente degradada, profanada“.

Na pós pandemia será’ urgente preciso renovar os tempos da festa, da celebração do sublime, o tempo da poesia, diz Franco Berardi, como “ o ato de fazer experiência com o mundo pelo embaralhamento dos padrões semióticos”, que pode mostrar um espaço de sentido que não preexiste na natureza, e que não tendo como fundamento a convenção social, vai além dos limites da linguagem, e “revela uma esfera possível de uma experiência ainda não experimentada”.

Haverá, para gozo e admiração, uma poesia urbana, de ventos e coisas, palavras e acontecimentos, capaz de revelar indizíveis significados e unir esforços híbridos, em nossas casas e na vida pública das cidades?

Kleber Frizzera

Maio 2020

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