Quem se aventura a sair de carro ou de ônibus vivencia, cada vez mais, um trânsito caótico na região Metropolitana do Espírito Santo e até mesmo fora dos horários de pico. Qualquer adversidade é motivo para uma fila de veículos enorme e horas no engarrafamento na Grande Vitória.

O que pouca gente sabe é que o Espírito Santo tem aproximadamente um carro para cada duas pessoas e a frota vem crescendo anualmente. De acordo com dados do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-ES), foram registrados 1,9 milhões de veículos até o ano de 2018, quando a população estimativa do Estado era de 3,9 milhões habitantes, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Dos veículos registrados, 938 mil são automóveis e estão concentrados em maior volume na Grande Vitória. O impacto da disputa pelo tráfego nas cidades metropolitanas acarreta na demora de ônibus, mais emissão de poluentes e aumento nos custos do transporte público.

A Associação Nacional das Empresas de Transportes Públicos (NTU) e especialistas defendem que a melhor opção para combater os engarrafamentos é tratar com prioridade o transporte coletivo. Os BRT’s, faixas e corredores exclusivos, sistemas de priorização de ônibus, estão presentes em 84 cidades brasileiras.

Para o presidente executivo da NTU, Otávio Vieira da Cunha Filho, optar por investimentos no transporte público, como, a implementação de faixas exclusivas, se justifica em detrimento do transporte individual e serve para devolver à maior parte da população urbana o espaço viário.

Otávio Vieira da Cunha Filho – Foto: Divulgação

“Se você considerar que atualmente as grandes cidades, por onde trafegam o transporte público, 70% do espaço viária está ocupado pelo automóvel, que transporta 25% das pessoas. Já o ônibus ocupa em torno de 10%, muito menos espaço, e transporta o dobro dos passageiros, afirma.

Em operação, o Brasil tem 221 empreendimentos, que totalizam 1.942,6 km de extensão. Outros 104 estão em obras e representam 1.007,0 km, além de 178 projetos que podem chegar a 1.448,6 km.

A única cidade no Espírito Santo a implantar o sistema foi Vitória, que conta atualmente com 3,8 km de extensão da faixa.

Linha Verde em Vitória 

A faixa exclusiva na capital do Estado é conhecida como Linha Verde, e pode ser utilizada por ônibus, ambulâncias, viaturas policiais, vans, táxis e veículos com três ou mais pessoas de segunda a sexta-feira, das 6 às 20 horas, e aos sábados, das 6 às 14 horas. Passam pela Linha Verde, em Camburi, 10 linhas de ônibus que servem à Capital e a outros municípios.

O sistema funcionou de forma educativa de março de 2018 até novembro de 2019, com campanhas de conscientização.

“O monitoramento mostra que a maior parte dos motoristas respeita o espaço, que é um dos projetos da Prefeitura de Vitória que visam a favorecer a coletividade, a mobilidade urbana e a segurança de pedestres e motoristas na cidade”, disse em nota a assessoria da secretaria Municipal de Transporte, Trânsito e Infraestrutura Urbana (Setran).

Os motoristas que desrespeitarem a prioridade poderão ser notificados, pois transitar de forma irregular pela faixa exclusiva é uma infração média, com perda de quatro pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH), segundo o Código de Trânsito Brasileiro (CTB).

A implantação da faixa em Vitória causou, inicialmente, certa resistência de motoristas. A situação foi a mesma encontrada pela prefeitura de Cuiabá ao implantar o sistema que prioriza o transporte coletivo.

Secretário Municipal de Cuiabá, Antenor Figueiredo – Foto: Michel Alvim

“É natural que qualquer intervenção viária encontre certa resistência nos condutores. Há uma quebra de rotina. Para que pudéssemos reduzir esse impacto e assimilar na cultura dos motoristas cuiabanos a novidade dos corredores exclusivos implantamos as faixas em 2017 e só começamos a autuar efetivamente os infratores em 2018″, afirma o secretário de Mobilidade Urbana de Cuiabá, Antenor Figueiredo.

Exemplos positivos

O impacto na capital de Mato Grosso é bastante satisfatório e a intenção do município é ampliar o sistema, que conta, atualmente, com 12,5 quilômetros de faixas exclusivas nas principais avenidas da cidade, Getúlio Vargas, Isaac Póvoas, Generoso Ponce, Tenente Coronel Duarte (Prainha) e avenida Historiador Rubens de Mendonça (CPA).

“A medida tem conferido mais agilidade ao transporte coletivo e reduziu o tempo de viagem de parte dos usuários em até 30%. Acreditamos que já há uma nova cultura em relação aos corredores, por isso a implantação em novos pontos seria mais tranquila do que foi em 2017, quando surgiram os primeiros”, disse o secretário, que acrescentou existir três avenidas em fase de estudo.

Avenida de Cuiabá com faixa exclusiva – Foto: Michel Alvim

Ainda de acordo com o titular da Semob, com as avenidas onde já funcionam as faixas foi possível manter o mesmo número de viagens e reduzir a frota em até 15%, “graças a agilidade que se ganhou no percurso”.

Em São Paulo, cidade brasileira que mais conta com faixas exclusivas, no ano de 2014, a duração das viagens foi reduzida em até 40 minutos por dia, segundo avaliação da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) da capital paulista.

Uma pesquisa de mestrado apresentada na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) apontou que a velocidade média dos veículos que trafegavam fora delas variou entre 0% e +4,55%. Ou seja, a faixa exclusiva de ônibus, no máximo, aumentou a velocidade média dos demais veículos e, no mínimo, não a afetou. Foram analisadas 139 vias importantes pelo pesquisador Rafael Martins de Oliveira.

Panorama no ES

O Espírito Santo deu sinais de que pretende reverter o quadro da mobilidade urbana, antes que o cenário entre em colapso. No último ano, o governo do Estado, por meio da Secretaria de Mobilidade e Infraestrutura (Semobi), fez importantes entregas para o transporte público. Junto à isso, foi anunciado que a Terceira Ponte vai receber, em breve, faixas exclusivas.

No ano passado, três ações foram importantes para uma significativa melhora no serviço prestado à população: a integração do Sistema Transcol com os sistemas municipais de Vitória e Vila Velha; a renovação de frota, com a entrega de 110 ônibus com ar-condicionado, e o lançamento do Cartão GV, o Bilhete Único Metropolitano.

Além disso, os novos veículos já saem para a operação equipados com o serviço de Wifi e entretenimento a bordo. “Ano que vem [2020] a gente continua dentro do plano anunciado que é ter 600 ônibus com ar-condicionado nas linhas troncais (de terminal a terminal) até 2022”, disse o governador do Estado, Renato Casagrande.

As modernizações no transporte público provocaram um crescimento de mais de 10% na utilização do CartãoGV do tipo Cidadão em relação a julho. O que representa cerca de 30 mil novos passageiros que antes pagavam em dinheiro e que agora pagam com o cartão.

A Terceira Ponte, principal ligação entre os municípios de Vitória e Vila Velha, ganhará em breve uma faixa exclusiva para ônibus, táxis e caminhões. Casagrande, durante o anúncio em 2019, afirmou que estudos serão feitos para definir quais as regras de uso.

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Após a entrega das obras, sem data definida, a via passa a contar com seis faixas, sendo três em cada sentido e uma delas exclusiva para táxis, caminhões e ônibus. Este formato é parecido a Linha Verde, em Vitória. O governo do Estado afirmou que, com essa medida, aumentará em torno de 30% a 40% da capacidade.

Planta da nova Terceira Ponte Foto: Divulgação/Governo do Estado

As faixas estarão adequadas às normas de trânsito e projeto prevê faixas com 2,80m de largura para automóveis e 3,10m de largura para a faixa exclusiva.

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