De repente intolerante: a adaptação alimentar de quem precisou deixar de consumir lactose

Diferentemente de alguns anos atrás, hoje é possível conviver com o problema e não mudar drasticamente a dieta alimentar

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Gabriel Rodrigues e Roberta Bonelly foram diagnosticados com intolerância à lactose aos 25 anos. Foto: Ana Nascimento.

*Por Ana Nascimento

A relação da maioria dos homens com o leite e seus derivados vai desde o nascimento, com o materno e durante a sua vida, aí já com o leite proveniente de animais. O ser humano é o único mamífero que continua a ingerir a bebida depois do desmame e o leite está presente nos lares brasileiros.

Porém, o corpo humano ao longo do tempo pode não reagir da mesma forma e alguns goles virão seguidos de dor de barriga, gases e diarreia. De acordo com a gastroenterologista e nutróloga, Christian Kelly Nunes Ponzo, estes são sintomas de uma pessoa com intolerância à lactose, aliados ainda a possíveis náuseas e dor de cabeça.

A especialista explica que ela ocorre devido a incapacidade completa ou parcial de digerir a lactase, açúcar existente no leite e seus derivados. O normal da evolução seria parar de ingerir leite.

Drª. Christian Kelly Nunes Ponzo – Foto: Acervo Pessoal

“Nós somos geneticamente condicionadas a diminuir a expressão da lactase, que é a enzima que todo mamífero tem para digerir o leite. Só que somos os únicos mamíferos que continuamos a tomar leite. Porém, essa enzima vai acabar em 70% da população e 30% tem uma mutação genética para continuar com a produção da enzima”, afirma.

A médica relata que os intolerantes podem continuar a consumir leite e seus derivados de duas formas, ou alimentando-se de produtos zero lactose ou ingerindo a enzima por meio de cápsulas, pó e comprimidos mastigáveis.

No Brasil, aproximadamente 35% da população disseram sentir desconforto digestivo ao consumir derivados do leite, segundo a pesquisa publicada em 2017 pelo Datafolha. A cada ano esse número tende a aumentar com o avanço das pesquisas sobre o assunto. 

Desse total de 53 milhões de brasileiros, 1,5 milhão de pessoas, à época, haviam sido diagnosticadas no Brasil com intolerância à lactose. É este grupo específico, entre a maioria acostumada a consumir a bebida láctea, que na adolescência ou no início da vida adulta precisaram mudar seus hábitos alimentares. 

Este é o caso dos amigos Roberta Bonelly e Gabriel Rodrigues, ambos com 25 anos. A contadora e o engenheiro procuraram um médico após os sintomas e, com o diagnóstico em mãos, tiveram que mudar a alimentação.

1,5 milhão de brasileiros com intolerância à lactose                            

 

Roberta diz ter convivido com o desconforto digestivo ao consumir derivados de leite por quatro anos. Azia, gases, inchaço e uma dor insuportável eram os sintomas mais comuns. Depois de exames, há pouco mais de cinco meses, ela foi diagnosticada como intolerante à lactose.

Roberta Bonelly, 25. Foto: Ana Nascimento.

“Coincidiu que toda vez que eu passava mal, algum consumo de derivado de leite estava envolvido. Eu sentia dores constantemente e o meu médico não descobria o que era. Até que fiz o teste de intolerância à lactose e fui diagnosticada em um nível leve do problema. Mas, hoje em dia, eu só consumo alimentos sem lactose, é a única maneira de me sentir bem”, afirma.

“Coincidiu que toda vez que eu passava mal, algum consumo de derivado de leite estava envolvido”

Roberta Bonelly

A história de Gabriel não é diferente, no entanto, em um nível avançado do problema. Há 10 anos ele conviveu com o desconforto, mas nunca procurou ajuda médica. Até que no último mês de agosto, quando passou muito mal ao ingerir um alimento derivado de leite, foi para o pronto socorro e, com testes realizados, descobriu ser intolerante à lactose. Atualmente, Gabriel tem uma dieta balanceada com restrição ao leite e derivados.

Gabriel Rodrigues. Foto: Ana Nascimento

“Eu sempre tive um desconforto ao ingerir lactose, mas  eu não sabia que era intolerante, pensei que era algo do meu sistema digestivo mesmo. O conhecimento do público intolerante à lactose aumentou muito de 10 anos para cá. Passei quase uma década com o problema e só fui descobrir quando já estava em um estágio avançado. Acredito que os alimentos zero lactose para esse público influenciam o senso comum a pensar que o desconforto digestivo pode ser intolerância à lactose. Porque antes, por falta de conhecimento, nem passou pela minha cabeça”, explica.

Alimentos zero lactose entram na rotina

Acredito que os alimentos zero lactose para esse público influenciam o senso comum a pensar que o desconforto digestivo pode ser intolerância à lactose

Gabriel Rodrigues

Amigos desde os 6 anos de idade, os encontros de Gabriel e Roberta desde a infancia eram acompanhados de derivados do leite. Brigadeiro, sorvete, pizza e outros alimentos lácteos estavam sempre presentes.

Neste ano, por coincidência, a dupla se tornou intolerante à lactose e precisou repensar a alimentação e conviver com a nova realidade, que, para eles, está muito mais fácil devido a grande quantidade de oferta de produtos zero lactose.

Como é produzido um produto zero lactose?

De acordo com a última pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha sobre o tema, foi constatado que um terço da população acima de 16 anos sente algum desconforto ao ingerir leite e seus derivados. O setor de alimentação está de olho neste potencial e vem investindo cada vez mais em produtos zero lactose.

No Espírito Santo, a cooperativa de laticínios Selita é uma das que mais produz variedade de alimentos e bebidas zero lactose. A reportagem foi à sede da empresa, em Cachoeiro de Itapemirim, para entender o processo de produção.

O leite resfriado de propriedades rurais cooperadas é descarregado e conferido o volume e a qualidade da produção. Em seguida, o leite passa pelos tanques de estocagem, local em que é adicionado a enzima lactase para a quebra das moléculas de açúcar da lactose.

O leite resfriado de propriedades rurais é descarregado na sede da Selita em Cachoeiro de Itapemirim. Foto: Ana Nascimento

O gerente industrial da Selita, Renato Dias de Souza, explica que a cooperativa dá um tratamento diferente para a produção do leite vindo da fazenda, quando destinado aos clientes intolerantes à lactose.

Renato Dias de Souza. Foto: Ana Nascimento.

“A Selita sempre foi preocupada em produzir com qualidade todos produtos e em atender seus clientes da melhor maneira possível. Então constatando a necessidade de produzir para que as pessoas que possuem a intolerância à lactose consumam os produtos lácteos, investimos nesses produtos que consistem no desdobramento da lactose, açúcar característico do leite, em dois açúcares: glicose e galactose. Desta forma, é eliminada a lactose que causa a intolerância ao organismo”, conclui.

Assista e entenda o processo

Vídeo: Movimento Online

Produção e vendas aumentam

Atualmente, a cooperativa Selita é a que mais tem produção capixaba para intolerantes à lactose. Foto: Ana Nascimento

A linha zero lactose na Selita foi pensada de forma específica para atender a demanda desse consumidor. Atualmente são produzidos creme de leite, requeijão, leite longa vida e até queijo minas padrão sem o açúcar característico lácteo.

A eficácia dos produtos possibilitou a uma aposentada de 91 anos voltar a consumir leite e seus derivados. Ormy Borges passou boa parte da vida sofrendo com os sintomas da intolerância à lactose e só teve o diagnóstico médico aos 60 anos.

Ormy Borges, 91. Foto: Ana Nascimento

Por um bom tempo ela teve que evitar consumir lácteos e até adquiriu uma doença por conta disto.

“Eu fui crescendo sem consumir leite e hoje sofro com osteoporose por conta disso. Parte da minha vida pensei que era alergia ao leite até ser diagnosticada com intolerância à lactose. E realmente são os alimentos zero lactose que não me fazem mal”, explica.

Os dados da gerência de mercado da Selita apontam que as vendas mensais fazem jus à grande procura do capixaba por esses produtos. Em média, são vendidos 150 mil litros de leite longa vida zero lactose, sendo o mais comercializado da banca. As outras produções da linha, como creme de leite, têm em média 8,3 mil copos vendidos, enquanto que o requeijão zero lactose tem saída de 5,1 mil copos, e o queijo minas padrão 1,3 mil quilos comercializados, ambos a cada mês.

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