Por Bruno Faustino – Águia Branca/ES

Se fosse um país, o Espírito Santo seria o 3º maior produtor de café do mundo e o 2º maior na produção da variedade conilon/robusta. A comparação prova a vocação capixaba para a cafeicultura. Em 2019, a safra brasileira é estimada em 48,99 milhões de sacas beneficiadas, segundo o último levantamento divulgado em setembro, pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Sozinho, o Estado deve produzir, em 2019, 13,47 milhões de sacas, sendo 3,15 milhões de sacas de arábica e 10,31 milhões de sacas de conilon. O que garante aos cafeicultores capixabas o segundo lugar no ranking da produção brasileira de café (arábica e conilon) e a primeira posição quando o assunto é a produção de robusta.

Foto: Divulgação

Esse “know-how” da cafeicultura capixaba muito se deve não somente à ciência, e ao desenvolvimento de pesquisas para melhoramento genético, mas também aos imigrantes que colonizaram as terras capixabas. Afinal, eles é que estão no dia a dia da lida na roça. Ao longo dos anos, o Estado recebeu gente de diversas partes da Europa, principalmente, da Alemanha e da Itália que, junto com os portugueses, africanos e indígenas aqui residentes deram os traços principais da cultura capixaba.

Por aqui também chegaram holandeses, pomeranos, poloneses, suíços, austríacos, belgos, luxemburgueses e libaneses. Por isso, o Espírito Santo é considerado um caldeirão cultural. E todos eles, sem exceção, desbravaram o interior e aprenderam o manejo e se envolveram com o café. Fossem nas regiões montanhosas com o cultivo do arábica, ou nas regiões mais planas com o plantio do conilon.

Conilon Capixaba

Acervo do Incaper mostra primeiro viveiro de conilon no início da década de 70

A cafeicultura capixaba teve seu início na segunda década do século XIX, consolidando-se como importante elo da economia capixaba a partir de 1850. Até 1962, o café arábica foi o senhor absoluto da economia estadual, ocupando mais de 500 mil hectares. A partir dessa época, os solos onde predominavam o plantio do café, começaram a apresentar sinais de exaustão, agravados com o surgimento da “ferrugem”, doença até então inexistente em território brasileiro. Em crise eminente, o Governo Federal lançou o plano de erradicação dos cafezais, que acabou atingindo 53% da área de café no Espírito Santo (1962 – 1970).

Com a impossibilidade de replantar café arábica em terras capixabas, surge como alternativa o café conilon/robusta, que, naquela época, possuía uma pequena lavoura implantada na Fazenda Monte Líbano, em Cachoeiro de Itapemirim, semeada na década de 20, mas sem grande expressividade. As primeiras sementes de conilon, provenientes de Cachoeiro de Itapemirim, foram levadas para a Escola Agrotécnica Federal de Santa Teresa e, posteriormente, encaminhadas para o município de São Gabriel da Palha, noroeste capixaba.

Em 1971, iniciou-se o plantio comercial do conilon e, em pouco tempo, a variedade começou a ocupar os espaços deixados pelo arábica. São Gabriel da Palha se tornou o berço do conilon no Brasil, principalmente, graças ao trabalho de incentivo realizado pelo imigrante polonês Eduardo Glazar e o descendente italiano Dário Martinelli, duas importantes personalidades políticas da época.

Kawa (Café): a contribuição polonesa

Os imigrantes poloneses chegaram ao Brasil entre séculos XIX e XX. A grande maioria estabeleceu-se na região sul (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul). Outros grupos, menos numerosos, vieram para o Sudeste (São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais) e Goiás – principalmente depois da II Guerra Mundial.

Em 1873, cerca de 60 famílias polonesas chegaram ao Espírito Santo (como cidadãos alemães) provenientes da Prússia, da Pomerânia e da Silésia (da região de Wrocław), e que, juntamente, com os alemães estabeleceram-se principalmente em Santa Leopoldina e Santa Teresa. A partir de 1876, teve início a colonização do vale do rio 25 de Julho, situado na parte inferior da serra de Santa Teresa, na direção de rio Doce, primeiramente por imigrantes italianos, alemães e suíços.

No ano seguinte, poloneses ocuparam as terras ao longo do rio 5 de Novembro, dando início à colônia chamada Patrimônio dos Polacos ou Santo Antônio dos Polacos. Já no norte capixaba, foi fundada pela associação denominada Sociedade Colonizadora de Varsóvia, a cidade de Águia Branca, que recebeu este nome por ser o símbolo da Polônia. O Movimento Online viajou até Águia Branca, distante 208 quilômetros de Vitória, para contar este capítulo da cafeicultura capixaba.

“Os poloneses chegaram aqui a partir de 1928. E na verdade, houve uma divulgação na Colônia que dizia que o Espírito Santo era uma terra promissora. Portanto, como a Polônia passava por um período pós-guerra bastante complicado e de fome inclusive, os poloneses viram aqui, em Águia Branca, a esperança de começar a vida nova. Mas quando chegaram perceberam que não era nada que estava naquele folheto de divulgação e que não era como o que tinham prometido”, explica Luiz Carlos Cuerci Fedeszen, descendente de poloneses e professor aposentado em Águia Branca.

Acostumados com uma vida bem diferente da que estavam tendo aqui, se adaptaram à realidade capixaba, e assim viraram cafeicultores. “Os poloneses tiveram que se ‘abrasileirar’, uma vez que comiam batata, repolho, carne… Aqui tiveram que aprender a plantar e assim foi com o café também. Eles plantavam café de forma artesanal e, somente mais tarde, se tornaram grandes produtores na região”, ressalta o professor.

Confira no podcast acima a entrevista com o professor Luiz Carlos Guerci Fedeszen

E, para entrar no clima, ouça uma canção tipicamente polonesa! A canção é Pastorałka od serca do ucha, composta por Rokiczanka

Um desses imigrantes tem relação direta com o sucesso do café conilon capixaba: Eduardo Glazar. A história dele está retratada no livro “Brava gente polonesa: memórias de um imigrante, formação histórica de São Gabriel da Palha e expansão do café conilon no Espírito Santo”. Em autobiografia, Glazar relata um pouco de sua história, desde a chegada ao Brasil, à colonização do município de Águia Branca – até então território pertencente a São Gabriel da Palha – sua trajetória política e o início do conilon no noroeste capixaba.

Eduardo Glazar deu o pontapé na produção de conilon quando foi prefeito de São Gabriel da Palha. A expansão veio com seu sucessor, Dário Martinelli. “Eduardo Glazar e Dário Martinelli foram indispensáveis para a expansão e o desenvolvimento do conilon aqui na nossa região. Sem eles, nada do que temos hoje seria possível. Costumamos dizer que são os ‘pais’ do conilon”, afirma Carlos Bastianello, presidente da Cooperativa Agrária de Cafeicultores de São Gabriel (Cooabriel).

Os poloneses foram os responsáveis pela disseminação do conilon por São Gabriel da Palha e, mais tarde, Águia Branca. A cafeicultura está presente até hoje no dia a dia das famílias descendentes de imigrantes poloneses que vivem em São Gabriel da Palha e Águia Branca. Uma delas é a família Matuchak, comandada por Estevam Matuchak, 76, neto de polonês. A propriedade, em Córrego das Flores, em Águia Branca, possui 22,75 hectares e 35 mil pés de café conilon. A família toda trabalha na propriedade e se orgulha da história construída pelos antepassados.

“É muito gratificante fazer parte desta história. Juntamente, nossa família e outros imigrantes abraçaram a causa. Não sabíamos se daria certo e, hoje, construímos uma bonita história”, relata Faélber Vitorino Matuchak, 29, da terceira geração da família.

E os imigrantes sabem que nada disso seria possível sem o entusiasmo e o otimismo de Eduardo Glazar. “Ele foi o grande pilar e incentivador do conilon aqui na nossa região. Isso, num momento muito difícil. Na época, havia muito desemprego na agricultura e o conilon mudou a nossa realidade”, completa Faélber.

Família Matuchak reunida para comemorar o aniversário do patriarca Estevam Matuchak. Foto: Divulgação

Atualmente, o café conilon é a principal fonte de renda em 80% das propriedades rurais capixabas localizadas em terras quentes (norte/noroeste). É responsável por 35% do PIB Agrícola. Hoje, existem 261,5 mil hectares plantados de conilon no Estado. São 40 mil propriedades rurais em 63 municípios, com 78 mil famílias produtoras. O cultivo da variedade gera 250 mil empregos diretos e indiretos, de acordo com o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper).

Conhecendo os cafezais de Águia Branca. 

Graças a esta força, o Espírito Santo possui a maior cooperativa de café conilon do Brasil, a Cooabriel, fundada em 1963 por 38 cafeicultores. A cooperativa iniciou suas atividades montando um setor de consumo (mercearia / supermercado) para atender seus associados em suas necessidades básicas. Depois passou a prestar serviços de comercialização, beneficiamento do café e, ao longo dos anos, estruturou-se para dar suporte a toda atividade cafeeira.

Faélber e o avô Estavam integram os mais de cinco mil cooperados da Cooabriel. Este ano, a cooperativa recebeu 1,650 milhão de sacas, um acréscimo de 30%. “Todo esse sucesso do café conilon se deve a todos os cooperados, em especial, aos pioneiros porque acreditaram e apostaram ‘todas as fichas no conilon. Somos muito gratos a todos. Sem eles, sem exceção, não teríamos chegado tão longe”, finaliza Carlos Bastianello, presidente da Cooperativa Agrária de Cafeicultores de São Gabriel (Cooabriel).

1 COMENTÁRIO

  1. Parabéns Bruno Faustino pela belíssima e rica em detalhes sua reportagem/matéria sobre a cafeicultura capixaba.
    Como descendente de italianos e nascido em Colatina, conheço um pouco desta história dos imigrantes europeus no Espírito Santo.

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