Além do Everest: conheça as histórias e motivações do alpinista capixaba Juarez Soares

Ele chegou ao topo do mundo e agora conta como a experiência no alpinismo muda sua vida todos os dias

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Alguma vez imaginou conhecer as sete montanhas mais altas do mundo, chegar ao topo de seis delas e além disso ser o primeiro capixaba, e um dos poucos brasileiros a chegar no ponto mais alto do mundo, o monte Everest? Essa é a realidade de Juarez Soares, que recebeu a reportagem do Movimento Online em sua casa, no município de Vitória, para contar quem é o homem por trás do empresário que chegou ao topo do mundo.

Durante a entrevista, contou os principais feitos da carreira amadora de alpinismo, revelou as dificuldades vividas, principalmente no Everest, como consegue levar os ensinamentos das montanhas pro dia a dia, e como a família foi e continua sendo importante na vida do capixaba que chegou ao topo do mundo.

Juarez é alpinista amador. Mesmo assim subiu as montanhas mais altas de todos os continentes, atingindo o cume em seis delas, incluindo o Monte Everest. Foto: João Brito

Trabalhando no ramo imobiliário há 18 anos, Juarez, de 48, conta que tudo surgiu quando num momento de, segundo ele, inquietação, decidiu aprimorar o gosto pela aventura e optou por conhecer o Pico na Neblina, ponto mais alto do país, onde passou o aniversário de trinta anos. Daí em diante não parou de buscar os pontos mais altos do planeta.

Na primeira aventura, Juarez fez diversos amigos, se aprofundou no universo dos alpinistas, e começou a planejar o desafio do qual, 18 anos depois, o levaria ao cume do Monte Everest. “O Pico da Neblina foi uma experiência muito interessante e lá eu conheci pessoas que já viviam nesse mundo das montanhas. Uma das pessoas que eu conversei, havia escalado o Kilimanjaro, monte de seis mil metros na África. Aquilo ali foi um mundo que abriu na minha cabeça. Daí eu voltei e não parei com o Pico da Neblina, continuei com algumas montanhas aqui no Brasil, mas já começando a pesquisar sobre o Kilimanjaro. Com as pesquisas, me deparei com o projeto de montanhismo mundial chamado de “Sete Cumes”, que visa subir a montanha mais alta de todos os continentes. Daí, outra vez senti “aquela coisa” na minha cabeça e pensei ‘que mundo é esse?'”, disse Juarez.

Com tal sentimento de inquietação, Juarez inicialmente se sentiu impossibilitado de cumprir tal desafio. “A partir do momento que deparei com os sete cumes, eu pensei que seria completamente improvável para mim, sobre todos os aspectos. Então era só um sonho, um susto, mas eu pensei: ‘algumas dessas montanhas talvez eu possa tentar fazer, que tenha um nível de dificuldade técnico mais baixo’. Daí fui para o Kilimanjaro, e definitivamente ‘fui mordido pelo bichinho’ e me apaixonei”, completa.

“Eu não fico com essa sensação de conquista em relação a montanha, com essa sensação de vitória. Eu acho para mim totalmente inapropriado, para as minhas experiências. Eu sei muito bem das minhas limitações, eu não sou ‘super expert’ em montanhismo, não sou um cara fera tecnicamente e nada disso. Eu tenho conhecimento, eu tenho certa experiência mas é duríssimo para mim. Além de eu saber das minhas limitações eu sei do tamanho que é a natureza, portanto basta um vento, uma mudança de clima lá em cima que tudo pode dar errado. Eu acredito que escalar montanhas, é muito mais um exercício de humildade”

Juarez Soares sobre a relação com o montanhismo

Sete Cumes

O projeto sete cumes é um dos mais conhecidos no mundo do montanhismo. Realizado pela primeira vez em 1985, o desafio tem o objetivo de alcançar, em todos os continentes, seus pontos mais altos, que são: Monte Everest (8848m), na Ásia, Aconcagua (6962m), na América do Sul, Denali (6194m), na América do Norte, Kilimanjaro (5895m), na África, Elbrus (5642m), na Rússia, Pirâmide Carstenz (4884m), na Oceania, e Vinson (4892m) na Antártida.

A ideia de Juarez era subir três, dos sete cumes, aqueles com nível de dificuldade menor, alcançáveis para uma alpinista amador. Em 2002, subiu o Kilimanjaro. Sem pressa e objetificar a próxima montanha, dois anos depois teve um dos principais desafios: a montanha de Aconcágua, na Argentina. Quatro anos mais tarde, veio a montanha de Elbrus, na Rússia.

Concluído o projeto pessoal de alcançar cumes em três continentes, Juarez seguiu, sendo ele mesmo, buscando individualmente a próxima montanha, sem pensar nos sete cumes de maneira completa. Outro cume alcançado por ele foi o Vinson, na Antártida, naquela que segundo ele, foi a melhor experiência montanhosa da vida.

“Talvez a experiencia mais incrível que eu vivi em termos de local. Você está no meio do nada na Antártida, no meio do continente, branco, de gelo, foi uma coisa louca. Foi a primeira experiência também em temperatura extremamente baixas, como foi agora o Everest. Chegamos a pegar – 42ºC”

Juarez no Monte Everest, coberto de gelo. Na Antártida, ele pegou uma temperatura de -42ºC. Foto: Arquivo Pessoal

Concluídos cinco cumes – também concluiu Pirâmide Carstenz, na Oceania, onde teve que aprender escalada, por conta das dificuldades da montanha – , chegava a vez do Alasca, antes do Everest. Em 2014, Juarez foi cumprir o desafio na América do Norte e um imprevisto fez com que ele não chegasse ao cume do Denali, montanha de 6.190 metros. Juarez conta como foi essa dificuldade.

“Veja como são curiosas as coisas de montanha: a ida ao Denali, foi quando eu tava mais bem preparado, no que diz respeito a condicionamento físico. Eu já tinha uma certa experiência de outras montanhas, então eu tava muito bem. Mas a gente chegou no Denali, que tem 6.100m, no último acampamento e ficamos uma semana parado, só esperando a janela de dois dias de tempo bom, o que acabou não acontecendo. A comida foi acabando e a gente teve que voltar”, disse.

Everest

Mesmo não tendo sucesso com o cume do Denali, o próximo desafio de Juarez era o maior de todos: o Monte Everest. Antes da montanha mais alta do mundo, no entanto, Juarez algumas outras, inclusive no ano passado na Bolívia, como preparação. Ainda como parte da preparação, ele conta que para o ponto mais alto do mundo, tudo tem de estar muito organizado.

“Tudo tem que estar impecável em todos os aspectos que envolvem a escalada, tanto na parte física, na parte técnica, quanto na parte de força mental. Tem que se estar muito bem preparado. A expedição é longa, são 60 dias na temporada única no ano, que acontece na primavera. Tem todo o cuidado logístico e ter também um cuidado que nas outras montanhas, as vezes você não se dá conta, que é o externo. Você não pode ir para o Everest, deixando pendências na vida pessoal, tem que ser um projeto que envolva toda a família. Fico até pensando, o que seria da escalada sem o apoio de esposa, de filho, de mãe e pai. Além disso, você tem que estar bem, deixar as coisas do seu trabalho bem organizadas. No fim são vários, os aspectos para ascender ao Everest”, completa.

Base camping do Everest. Foto: Arquivo Pessoal

Mesma com toda a preparação, os imprevistos foram protagonistas da escalada de Juarez. Todo o processo é dividido em três etapas: o base camping, que dura 20 dias até chegar em 5.400m. Depois, vem o período de aclimatação, com três ciclos de subida e descida de volta para o base camping, com o intuito de acostumar o organismo e o corpo com o clima.

No roteiro perfeito, o montanhista tem que estar descansado, preparado e pronto para atingir o cume na primeira semana de maio, para aguardar a janela climática favorável para a subida final. Essa janela geralmente acontece entre 10 e 25 de maio. Porém, em 2019, as coisas foram diferentes. Quando uma dessas janelas climáticas abriu, a maior parte dos alpinistas não estava preparada e poucos chegaram ao cume.

A próxima e última janela seria utilizada por quase todos aventureiros que aguardavam nos base camping, o que gerou uma enorme fila para chegar ao topo do Everest. Com uma estratégia diferenciada, Juarez evitou as filas, chegando antes do restante dos alpinistas no cume.

Porém, o imprevisto climático não foi o maior empecilho de Juarez na subida. Ainda no processo de aclimatação, ele escorregou no gelo e lesionou a lombar. O momento dramático fez com que ficasse sem andar e, com isso, enfrentar uma possível consequência: cogitar não subir o Everest.

“Eu caí de mau jeito, e eu conheço minha lombar. É meu ponto fraco. Ao passo que fui voltando para o acampamento base, já fui avisando ao chefe da nossa equipe que ‘já foi, para mim acabou, não dá pra continuar’. Entrei na barraca e já não conseguia mais andar, não conseguia sentar, não conseguia ficar de pé e sentia uma dor terrível. A equipe médica me levou para o pronto-socorro e eu seguia sem conseguir me movimentar. Eu fiquei pensando: ‘bom, eu me conheço, toda vez que machuco a lombar, fazendo massagem, indo no médico e tomando os remédios eu levo cerca de duas semanas para melhorar e aqui eu não tenho esse tempo'”, conta.

Quando tudo parecia perdido, porém, surgiu um dos fatores que Juarez se orgulha de levar para a vida pessoal e profissional: a força psicológica. Na recuperação da lombar, ele entrou em contato com um amigo alpinista de longa data, que o fez pensar na força mental que ele teria que levar pra concluir o desafio.

“Conversei com o amigo que disse: ‘se você se machucou para valer, pode arrumar as coisas e ir embora para casa, mas se você acha que é algo que pode de alguma forma estar relacionada a sua cabeça, você tem que reagir!’. No começo fiquei aborrecido porque eu estava machucado mesmo, mas fiquei com isso na cabeça e disse pra mim mesmo que precisava reagir, precisava mudar minha cabeça e de fato assim aconteceu”, destaca o alpinista capixaba.

Juarez ao chegar no topo do Everest. Além de todas as dificuldades, ele ainda teve o olho esquerdo congelado. Foto: Arquivo Pessoal

Na semana, Juarez passou por um teste de resistência e se habilitou a atingir o cume do Everest. Foi o primeiro capixaba e o 27º brasileiro a chegar no cume da montanha mais alta do mundo.

Para chegar ao topo do Everest, Juarez teve que se reinventar psicologicamente, de modo a convencer o próprio corpo de que era capaz de se recuperar em tempo recorde e atingir o sonho de completar, até então, seu maior desafio. A força mental que mostrou foi tão importante, que chegou a ser determinante para a chegada e para o prazer de estar na montanha mais alta do mundo.

“Eu não sei se eu estaria tão feliz ou tão relaxado, no bom sentido, e como estaria minha relação com a montanha. [caso não tivesse se machucado]. Porque até então, a minha relação com a montanha, antes de machucar, era da montanha me trazer sofrimento e desconforto. Depois que tudo aconteceu, eu passei a agradecer por cada passo, por cada dia e por cada momento a mais que eu conseguia estar naquela maravilha. E eu acho que a relação minha com a montanha, antes da lesão, talvez ela pudesse comprometer o ataque ao cume. Mas eu era só agradecimento, só gratidão. Até porque já nem era mais para eu estar lá”, lembra.

Aprendizagem

Com quase duas décadas de experiência a muitos mil metros escalados Brasil e mundo a fora, Juarez conta o que traz de ensinamento e aprendizagem das subidas e descidas e dos mais belos visuais do mundo. O primeiro destaque do capixaba é lembrar da própria existência, do fortalecimento dos valores mais importantes da vida, segundo ele. “A primeira coisa que passa é um filtro muito grande no que diz respeito ao que realmente é importante para você, as pessoas que realmente são importantes para você e as suas prioridades de vida”, comenta.

Experiente empresário no ramo imobiliário capixaba, Juarez também trouxe das montanhas lições para serem utilizadas no ambiente empresarial.

“Tem as questões óbvias, mas não menos importantes, a partir das associações que a gente faz da montanha com com com vida profissional, principalmente no que diz respeito à planejamento a organização. A montanha te proporciona naturalmente um nível de conhecimento maior da suas capacidades e das suas limitações e como conviver com isso. Te proporciona lidar com a incerteza de uma forma positiva também. Até porque você vai para montanha sem ter a certeza se você vai conseguir fazer um cume, apesar de toda a preparação. Se a montanha não quiser, acabou”, completa.

Além desses ensinamentos adquiridos de forma objetiva, Juarez também destaca o lado subjetivo de suas histórias, o contato com a natureza também o faz destacar toda a espiritualidade do momento.

“Eu acho que uma experiência tão Intensa como a do Everest, não tem como não não contemplar um outro lado da vida, além do pessoal, do lado profissional, da força mental, mas também do lado espiritual. Eu acho que é uma é uma experiência espiritual muito forte, uma experiência como o Everest, independentemente da religião ou até da não-religião da pessoa, mas sim de espiritualidade”, comenta.

Família

Apesar de ser apaixonado pelas montanhas e se aventurar nos mais altos lugares do mundo, Juarez demonstra paixão ainda maior pela família. Em diversos momentos da entrevista, lembra do apoio que a esposa, filhos e outros parentes sempre demonstraram com suas escolhas. E dentro de casa também está o futuro das próximas expedições e escaladas. Os filhos também visam o caminho da aventura.

Juarez tem dois filhos, Davi, de 19 anos e João, de 15. Os meninos já iniciaram a vida no montanhismo. Foto: João Brito

“A relação é a melhor possível. Minha esposa é super compreensiva nesse sentido. Não só de não criar objeções nas minhas viagens, mas também de dar apoio e ajudar a organizar as coisas. Tudo de mala é ela que resolve. Ela me ajuda bastante e eu viajo sem ter preocupação. Eu tenho muita tranquilidade para viajar e ela me dá uma força total. Os meninos [filhos, de 19 e 15 anos], de certa forma cresceram com isso. Quando eu fui para o Pico da Neblina, meu filho estava fazendo um ano, o outro ainda nem tinha nascido e eu tenho uma relação muito forte com eles em relação a isso. Em algum momento isso vai estar com eles”, disse.

A relação do montanhismo de Juarez com os filhos tem um capítulo ainda a ser desvendado. É rotineiro que os alpinistas realizem diários de bordo, registrando o dia-a-dia das expedições pelo mundo. A diferença aqui é que ao invés de fazer relatos em forma de diário, Juarez decidiu fazer as anotações em forma de cartas direcionada aos filhos, Davi, de 19 anos e João, de 15.

Enquanto as cartas não são lidas pelos filhos de Juarez – ele pretende entregar todas num outro momento oportuno -, o alpinismo parece estar no sangue.

“Eu lembro que eu fiz o cume do Aconcágua em 2004 quando o João tava completando 1 ano de idade. No aniversário dele de 1 ano eu estava na montanha. O Davi, com 3 anos de idade estava no Pico da Bandeira comigo, lá em cima e voltou nos meus ombros”, recorda.

Com o passar do tempo e a natural independência dos filhos, Juarez decidiu incluir de vez a escalada de montanhas na vida deles.

“Há um tempo atrás, percebi eles crescendo, ficando adolescentes e começando a se afastar um pouco do pai. Então a ficha caiu e eu falei: ‘gente eu preciso aproximar esses meninos de mim’, daí, veio o estalo na cabeça e decidi propor um projeto de escalar as 10 montanhas mais altas do Brasil, e para minha surpresa, eles não só aceitaram, mas os primos também gostaram da ideia e nós já completamos seis dessas dez montanhas. Virou uma coisa bacana, é legal porque eu me aproximo deles, me proporciona essa convivência também com a montanha e com a natureza. Se você me perguntar o que que eu gostaria de deixar para os meus filhos é isso. Porque o que é o que eu tenho de melhor”, afirma.

Lição

Para o empresário que descobriu o alpinismo por inquietação, se apaixonou e conhece as montanhas mais altas de cada continente, além de chegar no topo do mundo, a lição que fica para quem deseja vencer desafios bem mais brandos que esses é a atitude.

Juarez conta sobre sua iniciativa, e deixa recado para entusiastas. Vídeo: João Brito

“Bom, para todo grande sonho, uma hora você tem que levantar da cadeira e começar. Num determinado momento eu tive que olhar no espelho, vencer um pouquinho aquele medo inicial, que é encarar uma montanha como essa”, finaliza.



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